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COMO OS GERENTES PODEM REDUZIR O TRAUMA CUMULATIVO Gary Karp (Onsight Technology Education Services) (Trad.: Anderson Santos Silva, Out/96) A) O RELACIONAMENTO GERENTE/TRABALHADOR
Existem algumas questões ergonômicas que dizem respeito especificamente ao gerenciamento. Os gerentes têm oportunidade de promover condições com baixo potencial de causar lesão e identificar sinais precoces de que alguém pode estar com problemas, e então, prevenir o agravamento. Muito do que se segue está fundamentado em pesquisa; outra parte, é uma questão de bom senso. A qualidade do relacionamento entre trabalhador e gerente tem uma grande influência no potencial para desenvolver lesão por trauma cumulativo (LTC ou LER). Pesquisadores ergonomistas fizeram um estudo em São Francisco e observaram que com uma boa ergonomia, porém, uma supervisão precária, os sintomas foram mais severos. Em outras palavras, uma supervisão precária, em essência, cancela os benefícios de um posto de trabalho ergonomicamente correto. Um fator que realmente aumenta o risco é a percepção, por parte do trabalhador, da atitude do gerente, frequentemente diferente daquilo que ele, de fato, está pensando. Não é fácil ser um gerente intermediário: tentando equilibrar as necessidades das pessoas que trabalham para você e as expectativas dos gerentes superiores. Quando lidamos com um assunto tão delicado como lesões relacionadas ao trabalho, observamos que as pessoas têm uma tendência em esconder os seus problemas por medo de não obterem um retorno adequado. Infelizmente, é o que acontece, de fato, em muitos casos. Um relatório do Centro Médico Rochester revela que muitos pacientes continuaram a trabalhar com dor durante meses, por necessidade de manter o emprego ou pela percepção da contribuição do seu trabalho para a Organização ou devido a um elevado senso de ética profissional. Muito poucas pessoas vêm a LER como uma chance para burlar. As pessoas, em geral, desejam trabalhar, embora, obviamente, existam exceções. Desde quando este é um problema de superesforço, significa que as pessoas mais expostas são exatamente aquelas que trabalham mais. Estas lesões estão comprometendo a nossa força de trabalho mais valorosa. No estudo de Rochester, encontrou-se que os seguintes fatores estiveram associados a desordens musculo-esqueléticas relacionadas ao trabalho: perda da capacidade de tomar decisões, percepção de que o gerenciamento não valorizou a importância da ergonomia, incerteza quanto ao futuro do emprego, tarefas desiguais, pressão de tempo e receio de ser substituído pelo computador. B) MEIOS PARA REDUZIR A LESÃO DOS TRABALHADORES
1. PROMOVER O EFETIVO GERENCIAMENTO DO TEMPO Normalmente, você não pensa no gerenciamento do tempo como uma questão de saúde e segurança, mas lembre-se que o estresse pode ter efeitos negativos reais sobre o corpo. Existem algumas oportunidades para reduzir o estresse relacionado ao gerenciamento do tempo. Faça a você mesmo algumas destas perguntas: é comum, no seu grupo, o acúmulo de tarefas com prazos determinados? Em geral, todos têm consciência da fase em que estão no processo e do quanto foi deixado por fazer? Seus "papéis" são bem definidos? Eles têm um senso do progresso ou apenas cumprem tarefas à medida que aparecem? Eles têm oportunidade de contribuir com o processo e sua otimização? Algumas vezes são cometidos alguns enganos ou informações são perdidas porque o sistema de trabalho não é claro ou possui brechas. Pode-se solicitar um retrabalho simplesmemte porque parte da informação não estava disponível ou em local claramente definido. As pessoas não se incomodam em trabalhar muito, com pressão de tempo, em um sistema eficiente. É quando existe ineficiência que as pessoas ficam estressadas e ressentidas. No trabalho com movimentos repetitivos, como em terminais, este fato aumenta a possibilidade de lesão. Desta forma, um eficiente gerenciamento do processo de trabalho significa proteção para os trabalhadores pela redução do estresse e consequente redução da tensão muscular, fadiga precoce e alterações hormonais e imunológicas associadas com o risco de lesão tecidual ao longo do tempo.
2. MELHORAR O DESIGN DO TRABALHO Desde que a maior causa de lesão é o trabalho contínuo em computador, o objetivo deve ser dividir as tarefas em sessões que não envolvam movimento repetitivo ou postura prolongada. Um estudo feito na Universidade de Massachusetts diz que " a evidência mais consistente para explicar a lesão relacionada ao trabalho envolve a intensidade de exposição cumulativa no uso de teclados ". Certamente isto é, em parte, uma questão do gerenciamento individual do tempo, mas pode ser gerado, em grau significativo, pela organização do trabalho, por sí só. Você deve considerar a subdivisão do trabalho em tarefas reais: trabalho com teclado, escrita à mão, falar ao telefone, ler, grampear, etc. Tente ter uma noção de quanto tempo foi gasto em cada tarefa da jornada, e então, procure soluções para dispersá-las com mais frequência, particularmente aquelas que envolvem movimentos repetitivos. Você deve ser cuidadoso com o trabalho superespecializado, uma tendência comum no trabalho moderno e isto é, exatamente, parte do problema. Através de um treinamento cruzado você não apenas evita lesões desnecessárias como também torna o grupo mais flexível. As pessoas gostam mais do trabalho quando ele é variado. Esteja certo, contudo, de não estar fazendo rodízio entre duas tarefas igualmente repetitivas. 3. ESTIMULE MICROPAUSAS Frequentemente o trabalhador evita até mesmo parar um pouco e fechar os olhos ou respirar profundamente, por medo de ser visto como improdutivo. Fazer disto um hábito, repetido várias vezes em uma hora, principalmente durante trabalho prolongado em terminais, tem demonstrado um aumento da produtividade ao mesmo tempo que reduz o risco de lesão. Micropausas são, realmente, muito importantes em qualquer estratégia preventiva. Os trabalhadores devem saber que esta prática é bem vista e sancionada pela gerência. Pelo menos este método é uma maneira de retardar o ponto de fadiga. Reservar momentos simplesmente para fechar os olhos, respirar, levantar por um instante, etc, permite recuperar continuamente a energia do corpo e mantém um estado mais relaxado, mas é incrível como as pessoas raramente fazem isto durante o trabalho. No trabalho com computador, em especial, as pessoas ficam cansadas desnecessariamente por não se movimentarem o suficiente e por ficarem com os olhos grudados na tela. Uma pesquisa do conhecido ergonomista Ettienne Grandjean demonstrou que micropausas prescritas, de fato aumentam a produtividade. Segundo Grandjean, as pausas dividem-se em quatro tipos:
Sua pesquisa conclui que " introduzir intervalos de descanso (micropausas) realmente incrementa o trabalho, gerando menor número de pausas expontâneas e dissimuladas".
4. PROMOVER O TREINAMENTO Infelizmente, muitas pessoas não estão sendo treinadas para a tecnologia existente no posto de trabalho; simplesmente recebem tarefas que não estão preparadas para desempenhar ou softwares muito complexos. Existem dois problemas aquí. O primeiro e mais óbvio é o estresse resultante da luta da pessoa tentando encontrar o comando correto ou uma tela perdida. O outro problema é que se "gasta" movimento das mãos em decorrência de erros (re-trabalho) ou da não utilização de rotinas automáticas do próprio programa, por exemplo, macros. É muito comum esta perda de tempo, além de movimentos repetitivos desnecessários.
5. GERENCIE AS CONDIÇÕES DE ALTO RISCO Às vezes, o risco de LER no ambiente de trabalho é mais do que o normal. São situações que surgem e não podem ser evitadas. Neste momento, você vai prestar atenção à segurança. Estudos demonstram que o perfil do trabalho, em um novo emprego, fica estabelecido dentro das duas primeiras semanas. Desta forma, você deve ter um cuidado a mais com novos empregados, apoiando-os quanto às medidas de segurança. A instalação de novos equipamentos ou nova tecnologia produz elevado estresse. Há muito que aprender nestas horas e leva um tempo até que se alcance um nível de conforto. Nós também encontramos "bugs" (erros de programação) ou outros problemas e passamos muito tempo ao telefone ajudando os clientes (usuários finais). São momentos de elevadíssimo estresse. Geram estresse o acúmulo de trabalho inevitável e perda de prazos, além de fatores pessoais como: mudança, separação ou doença em familiar, como também o trabalho extra a partir de ausências por férias, gravidez e afastamento por doença.
6. MANTER HÁBITOS SEGUROS DE TRABALHO Uma maneira de ajudar o seu grupo é alertar delicadamente quando você perceber alguém praticando algum hábito mais arriscado. Observe os hábitos de estirar os dedos durante a digitação ou de pressionar as teclas com muita força. Chame a atenção quando esticar o pescoço e inclinar-se em direção à tela for uma postura típica de alguém. Escorregar voluntariamente na cadeira pode ser um sinal de fadiga e determina a necessidade de uma pausa. Consiga que as pessoas sentem-se corretamente em suas cadeiras. Estimule-as a beberem água. Estas são características comportamentais difíceis de serem mudadas e muito típicas de usuários de computador. Obviamente evitando tornar-se uma "persona non grata", quando encontrar alguém praticando estes hábitos,ajude de forma ocasional e suave.
7. PROVER O ESPAÇO ADEQUADO O layout do escritório tem o potencial de contribuir com o nosso programa de segurança. Enquanto o foco principal deve ser o posto de trabalho individual, existem alguns pontos importantes que devemos lembrar. As pessoas devem ter a chance de repousar seus olhos à uma distância de 8 metros ou mais, no entanto, no planejamento de alguns ambientes de trabalho esta condição não está disponível, muito menos através de janelas. Por isto, no desenho de muitos sistemas modulares são incluídos painéis transparentes (janelas de vidro). O layout de estações individuais frequentemente determinam a posição do computador. O layout de canto é o exemplo mais comum, de maneira que, se a janela estiver diretamente atrás ou oblíqua em relação à tela, forçará uma despesa adicional de tela luminosa para a empresa porque não existe uma maneira de obter-se uma relação sem reflexos com a janela. Quem trabalha frequentemente com impressão certamente será beneficiado com a impressora em sua própria mesa, apesar da desvantagem de estar próximo de uma zona de radiação.
8. REDUZIR O RUÍDO Diferentes pessoas têm capacidade diferente de abstrair-se do ruído ambiente. Alguns trazem rádios ou walkmen e outros são até capazes de concentração em " zonas de guerra". Primeiro, reúna os indivíduos e solicite que evitem distração indevida. Observe o sistema de som da empresa, por exemplo. Portas de auditório e elevadores são áreas que se deve ter cuidado porque são locais onde as pessoas se concentram, aumentando o ruído. Não se deve colocar, próximo a essas áreas, pessoas que necessitam de concentração em tarefas criativas como engenharia, contabilidade e escrituração. Você também deve fazer uma pesquisa das fontes de ruído, como impressoras, computadores ou discos rígidos que podem gerar ruído suficiente para distrair. Algumas vezes estes ítens podem ser colocados sob a mesa; quando isto não for possível, adicione plantas e tapetes ou materiais especiais de absorção sonora.
9. OBSERVE OS SINTOMAS Muitos trabalhadores ainda não entendem como são importantes os sintomas precoces. Frequentemente receiam a pecha de queixosos ou, simplesmente, não valorizam a dor. Como, em geral, incapacidade é o resultado de uma espera muito longa, você, como gerente, deve contribuir muito para obter informações o mais cedo possível e abrir os olhos para estes sintomas precoces. Existem muitos sinais iniciais que indicam o aparecimento dos sintomas. Procure por:
Este último ponto é muito importante. Quando alguém se atormenta com a dor e com o medo do que ela possa significar, isto pode afetar seu trabalho e sua atitude. Quando uma pessoa, repentinamente, começa a cometer erros ou ter dificuldade no trabalho, criticá-la ou concluir que ela "perdeu seu passo" serve apenas para isolá-la e, assim, perder a oportunidade re recuperar a qualidade do trabalho e das relações que havia antes da lesão. Talvez, numa reunião com o grupo, você possa promover atitudes preventivas, chamando a atenção para sintomas menos graves, persistentes, alertando que podem não significar um problema sério mas que você quer ter certeza de não haver uma fonte contínua de estresse no trabalho. É a sua oportunidade de determinar se as pessoas devem procurar tratamento ou se podem obter benefícios a partir de ajustes no posto de trabalho e, simplesmente, remover o problema antes que se torne grave. Certamente, esta é uma questão delicada. Você não vai querer gerar preocupações indevidas nem, por outro lado, desatrelá-las do trabalho. A palavra "persistente" é a chave. Quando a dor aumenta com o trabalho, mantém-se dia após dia ou acorda as pessoas à noite, uma resposta precoce é útil para todos, a longo prazo.
C) O QUE FAZER APÓS A LESÃO
Quando se alcança um estágio de lesão que requer tratamento, sua assistência pode ajudar o empregado a retornar ao trabalho. No final, é o que todos desejam, você e o empregado.Durante o processo de recuperação, qualquer fator estressante individual só serve para retardar a cura. O estresse interfere com os processos fisiológicos envolvidos na cicatrização. Frequentemente, alguém precisa de fisioterapia, duas ou mais vezes por semana. A maioria das pessoas utiliza o início da manhã, o horário do almoço ou o final do dia para reduzir o impacto sobre o trabalho e tentam ser especialmente produtivas para compensar. Elas precisam liberar-se da pressão de estarem afastadas do trabalho e isto ser visto desfavoravelmente. Se alguém se afasta por um período, devido à incapacidade por doença, é importante que você fique atento, telefone de vez em quando para saber como a pessoa está passando. Afinal, somos todos humanos e as relações de trabalho continuam sendo relações entre pessoas que desejam sentir-se valorizadas e queridas. Afastar-se do trabalho e não ser procurado por ninguém, apenas aumenta o isolamento. Participe do processo, fazendo com que a pessoa saiba que existe preocupação com o seu bem-estar. Melhor ainda, procure a pessoa e questione alguma coisa sobre o trabalho, fazendo-a ver que não tem sido fácil a sua ausência. A noção de que as pessoas precisam ser deixadas em paz enquanto se recuperam não é o caso. De fato, é quase o oposto. A progressão do trabalho em tempo integral para nenhum trabalho é um choque para o sistema; e é um alívio ainda sentir-se necessário. N.T.: neste ponto existe um parágrafo sobre um aspecto legal da burocracia americana que evitei traduzir por falta de interesse prático para nós, brasileiros. D) EPÍLOGO
Como gerente, você tem muitos envolvimentos com esta questão. Fazendo o possível para promover a segurança, ao mesmo tempo você aumenta a produtividade e melhora as relações de trabalho. Você pode fazer diferença quanto a desnecessária velocidade dessas lesões verdadeiramente preveníveis.
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