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Organização do trabalho

                                                 

 

 

 

ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO

Anderson Santos Silva (Jul/95)

 

Um dos ítens mais importantes de qualquer projeto ergonômico é o que trata da Organização do Trabalho, haja vista que, não existindo uma atenção especial para este aspecto, muitos esforços envolvidos na troca de mobiliário e equipamentos podem representar pouca utilidade, pelo menos na prevenção das lesões por trauma cumulativo e neuroses profissionais, intimamente relacionadas entre sí. O homem, além do corpo físico, possui uma estrutura mental, intelectual e emocional, que o distingue das outras espécies e através das quais se relaciona com o mundo externo, inclusive o seu trabalho. Estes elementos constituem-se no que chamamos de atividades cognitivas do ser humano, determinando,na sua interação com o trabalho, uma das áreas da ergonomia mais estudadas atualmente, a Ergonomia Cognitiva, da escola francesa.

Assim, o indivíduo mobiliza energias diversas no seu trabalho a cada momento, por mais simples que possa parecer sua tarefa, resultando em diferentes modelos de postura (sentido amplo) muitas vezes indesejáveis e que vão influenciar a sua própria qualidade de vida e a qualidade do serviço prestado. Padrões de medo, raiva, pessimismo, falta de motivação, relacionamento interpessoal precário e sentimento de menos-valia coexistem, em algumas situações, com trabalho monótono, intenso e repetitivo, fadiga muscular e visual, trabalho de turno e noturno, falta de reconhecimento e elogios, problemas financeiros, familiares e de saúde.

Neste contexto, não é difícil compreender o que pode resultar: baixa eficácia e eficiência, perda de qualidade, custos financeiros e sociais elevados, estresse, doenças ocupacionais, neuroses, comprometimento da imagem da empresa, aumento do absenteísmo; em suma, produtividade inferior à desejada e insatisfação pessoal.

Na época do Taylorismo, dizia-se que o operário ideal deveria ter a força e a inteligência de um boi. Henry Ford, sempre lembrado pelas suas realizações, também pregava que o trabalhador, ao entrar para o serviço, deveria deixar na portaria da empresa o chapéu e a inteligência. Evidentemente, hoje em dia, todos concordamos que isto é inaceitável, sob todos os aspectos.

Se considerarmos apenas o nosso estado de vigília, podemos dizer que cerca de metade da nossa vida é dedicada ao trabalho e nele depositamos desejos e expectativas que compõem o nosso projeto de realizações pessoais. Quando estas aspirações são frustradas surgem, inevitavelmente, dissociações, conflitos e mecanismos de auto-preservação que comprometem o projeto global de vida do indivíduo. Da mesma forma, as vivências externas ao trabalho não podem ser simplesmente deixadas num escaninho da portaria, como desejava Ford. Em verdade, elas nos acompanham todo o tempo, seja no trabalho, na rua ou em casa, inclusive nos sonhos.

Nos últimos anos, algumas empresas no Brasil começaram a pensar nesta questão. São exemplos a própria Ford Indústria e Comércio, Telemig, Volvo, Du Pont, Petrobrás, Dataprev e Metrô-SP que investiram algumas centenas de milhares de dólares em projetos de intervenções ergonômicas, com bons resultados. Outras, adotaram horários flexíveis: IBM, Método e Union Carbide. Em uma pesquisa realizada pela Johnson & Johnson americana, demonstrou-se que houve uma redução de 50 % no absenteísmo esperado após a adoção desta prática, conciliando interesses e aumentando a satisfação dos empregados.

Cada empresa, cada posto de trabalho e cada indivíduo devem ter a sua abordagem própria no que diz respeito à organização do trabalho nos seus aspectos administrativos e elementos cognitivos. Citarei a seguir, de forma resumida, algumas condutas de natureza administrativa, coadjuvantes na prevenção das lesões por trauma cumulativo e na melhoria geral do ambiente de trabalho.

 

PAUSAS REGULARES

Esta é uma medida que recomendo enfaticamente para todos os expostos ao estresse e às atividades biomecânicas indesejáveis (repetitividade, postura estática, compressão mecânica e força muscular), tal como ocorre, por exemplo, com digitadores, operadores de telemarket, caixas, mecânicos industriais, overloquista, montadores de componentes eletrônicos, bancários, etc. Para a atividade de entrada de dados, aplica-se a NR-17, ou seja, pausas regulares de 10 (dez) minutos após cada período trabalhado de 50 (cinquenta) minutos, não deduzidos da jornada normal de trabalho e não devendo ultrapassar o limite máximo de 05 (cinco) horas diárias de tempo efetivo de trabalho nestas circunstâncias. Outras atividades poderão ter pausas diferentes. Entende-se que este repouso cíclico permite oportunidades de recuperação das estruturas motoras do corpo humana, muito importante para a integridade a longo prazo, especialmente no que diz respeito aos membros superiores e região cervical. Estes períodos de descanso podem ser melhor aproveitados através da criação de ambientes especiais destinados à prática de exercícios de relaxamento muscular, meditação, leitura e bate-papo; ouvir música e dançar podem ser interessantes. A opção deve ser feita pelo próprio empregado, contudo, algumas atividades como jogos de computador, ping-pong, totó e assemelhados podem ser ergonomicamente inconvenientes e devem ser desestimulados.

 

HORÁRIO FLEXÍVEL

O horário flexível, conforme citado anteriormente, é uma experiência de sucesso garantido mas nem sempre exequível, devido às peculiaridades de cada trabalho. Devemos dedicar mais tempo ao estudo desta possibilidade que permite ao empregado, por exemplo, apanhar seus filhos na escola, almoçar com a família ou atender outros interesses pessoais, ao tempo em que a empresa ganha em redução do absenteísmo, motivação, qualidade e produtividade.

 

CONTEÚDO DO TRABALHO

Vamos imaginar o conteúdo do trabalho como a sequência de tarefas de uma jornada, cada tarefa como uma sequência de ciclos completos e cada ciclo, por sua vez, como a sequência dos elementos que o constituem. No nosso exemplo, digamos que o trabalho de uma telefonista durante todo o dia seja completar ligações telefônicas solicitadas por clientes externos. Assim, a sua jornada é constituída por uma única tarefa (completar ligações), centenas de ciclos iguais (cada cliente atendido corresponde a um ciclo) e os elementos de cada ciclo podem ser: 1- observar uma lâmpada piloto que acende no painel, 2- pegar um cabo na mesa à sua esquerda, 3- introduzir o jack na tomada correspondente, 4- acionar uma chave comutadora, 5- conversar com o cliente, 6- anotar os dados num formulário, 7- virar a chave novamente, 8- pegar outro cabo na mesa, 9- inserí-lo na tomada correspondente, 10- teclar um número, 11- anunciar a ligação, 12- acionar a chave comutadora, 13- falar novamente com o cliente e 14- retornar as chaves às suas posições. Este modelo, além de repetitivo do ponto de vista biomecânico, é monótono e estressante, principalmente se houver pressão exagerada por indicadores de produtividade.

 

CONCLUSÃO

Além dos aspectos citados, deve-se analisar bem as questões relacionadas com o trabalho de turno e noturno, a carga da tarefa, o ritmo do trabalho e o estilo gerencial; enfim, tudo o que possa comprometer a saúde do trabalhador.

Devemos lembrar sempre que as pessoas necessitam de reconhecimento e valorização para se sentirem realmente importantes no processo produtivo e que o primeiro julgamento é delas próprias que sabem discernir quando são peças passivas e facilmente repostas ou, por outro lado, quando estão inseridas num trabalho verdadeiramente participativo, onde a opinião de cada uma é considerada nas oportunidades de decisões significativas, extrapolando o universo limitado das chamadas microdecisões, paradigma de muitas funções.

 

BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA

 

Wisner, Alain. A inteligência no trabalho. Fundacentro, 1994.
Couto, Hudson de Araújo. Guia Prático - Tenossinovites. Ergo, 1991.
Reinventar o Trabalho. Em: Revista PROTEÇÃO, vol. 6, nr. 31, pg. 14 a 20, 1994.
Martins, Ivan. A última doença do século. Revista EXAME, 18.01.95, pg. 92 a 95.
NR-17, Portaria Nº 3.214, 08.07.78 (MTE).
 
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Atualizado em: outubro 08, 2002
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