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LER
- LESÕES POR ESFORÇOS REPETITIVOS (UMA PROPOSTA DE AÇÃO PREVENTIVA)
Carlos Roberto Miranda e
Carlos Roberto Dias
RESUMO
As Lesões por Esforços
Repetitivos (LER) representam atualmente mais da metade de todas as doenças ocupacionais
no Brasil. No presente estudo, utilizando dados do Instituto Nacional do Seguro Social
(INSS) - jurisdição da Região Metropolitana de Salvador (Bahia), foram identificados
1.014 trabalhadores recebendo benefícios previdenciários ("benefícios
ativos") por causa de LER. Foram determinadas as características dos 1.014
indivíduos (idade, gênero, função, diagnóstico clínico e topográfico, data do
diagnóstico, empresa e ramo econômico). Como o objetivo principal da prevenção da LER
é identificar os trabalhos que necessitam de intervenção para eliminar os riscos
ergonômicos, foram selecionados e analisados 100 locais de trabalho visando reconhecer,
identificar e corrigir esses riscos. Foi desenvolvido um questionário
("checklist") para determinar a presença de fatores de risco ergonômico, o
qual revelou-se um eficiente instrumento de triagem para identificar trabalhos associados
com o desenvolvimento de LER.
Palavras-Chave: Lesões por
Esforços Repetitivos (LER), Estatísticas Previdenciárias, Riscos Ergonômicos,
Questionário
SUMMARY
Cumulative Trauma Disorders
(CTDs) currently accounts for over half of all occupational illness in the Brazil. In the
present study, using data from Instituto Nacional de Seguro Social (INSS)-Metropolitan
Region of Salvador (Bahia), was identificad 1.014 workers receiving compesation benefits
because of CTD. The characteristcs of the 1.014 subjects was determined (age, gender,
office, clinical and topographic diagnostic, date of diagnostic, enterprise and economic
branch). Furthermore, how the main objective of CTD prevention is to identify jobs needing
intervention to eliminate the ergonomic hazards, 100 work sites were selected and
analysied to recognize, identify and correct these hazards. A checklist for determining
the presence of ergonomic risk factors was developed and was found to be na effective
rapid-screening instrument for identifying jobs associated with the development of CTDs.
Key-Words: Cumulative
Trauma Disorders (CTDs), Social Welfare Statistics, Ergonomic Hazards, Checklist
INTRODUÇÃO
Lesões por Esforços
Repetitivos - LER, são afecções de origem ocupacional que atingem os membros
superiores, região escapular e pescoço, resultantes do desgaste muscular, tendinoso,
articular e neurológico provocado pela inadequação do trabalho ao ser humano, e
decorrem, de forma combinada ou não, da manutenção de postura inadequada e do uso
repetido e/ou forçado de grupos musculares (1).
Estudos diversos tem
revelado, no desenvolvimento da LER, a possível contribuição de fatores psicossociais
(2, 3).
O trabalho nas condições
acima referidas pode provocar o acometimento de tendões, sinóvias, músculos, nervos,
fáscias, ligamentos, isolada ou associadamente, com ou sem degeneração dos tecidos,
especialmente dos dedos da mão, punhos, antebraços, cotovelos, braços, ombros, pescoço
e regiões escapulares (4, 5).
Nos últimos anos tem sido
relatada também a ocorrência de afecções de origem ocupacional em membros inferiores,
especialmente atingindo os joelhos (6).
Situação nos Locais de
Trabalho
O problema da incidência
das lesões por esforços repetitivos constitui um fenômeno universal, de grandes
proporções, em constante crescimento.
Na verdade, tais lesões
já foram registradas em 1700 pelo médico italiano Ramazzini, que estudou sua ocorrência
entre escriturários. Em 1895, de Quervain descreveu o "entorse das lavadeiras",
depois denominada tenossinovite do polegar.
Contudo, já neste século,
somente a partir da década de 60 o problema ganhou maior dimensão com a incidência
crescente da LER entre trabalhadores de países industrializados, especialmente no
Japão(7), Austrália (8), Suécia (9) e Estados Unidos (10).
Atualmente, diversas
categorias que tem em comum a repetitividade de movimentos e o esforço físico, são
atingidas pela LER, especialmente os digitadores e usuários de terminais de vídeo (11),
caixas de supermercado (12), bancários (13), secretárias (14), datilógrafos (15),
telefonistas (16), eletricistas (17), músicos (18), médicos (19), operários de linha de
montagem (20) e, trabalhadores nas indústrias automotivas (21), metalúrgicas (22) e de
preparação de alimentos (23).
Estudos tem apontado ainda
que o risco de desenvolver LER é maior para a mulher do que para o homem (24, 25). Além
disso, certos indivíduos apresentam maior risco para desenvolver LER por serem portadores
de condições sistêmicas predisponentes, tais como diabetes, artrite reumatóide, gota,
hipotiroidismo, colagenoses vasculares, tuberculose e infecções por fungos.
No Brasil, desde o início
da década de 80, alguns sindicatos de trabalhadores em processamento de dados (RS, MG, RJ
e SP) começaram a denunciar a ocorrência de lesões por esforços repetitivos entre os
digitadores. A partir de 1984/85, com a redemocratização do país e diante da crescente
pressão social exercida pelo movimento sindical, a Previdência Social começa a
reconhecer a existência do problema e a conceder os primeiros benefícios
previdenciários por LER.
Contudo, somente a partir
de 1986 a LER passou a assumir relevância crescente nas estatísticas sobre doenças
profissionais, sendo que esse fato pode ser explicado, em parte, pela rápida absorção
pelo nosso país das inovações tecnológicas e pela importante atuação dos
trabalhadores, como bem estudou LYS ROCHA (26).
Vale recordar que, em nosso
país, apenas a partir de 1987 a Previdência Social passou a considerar a LER como uma
doença profissional ( 27).
Em 1990, o Ministério do
Trabalho, através da NR-17 da Portaria nº 3214/78, regulamenta alguns aspectos da
ergonomia, introduzindo a obrigatoriedade da realização da análise ergonômica dos
postos de trabalho e contemplando, principalmente, os aspectos relacionados ao
mobiliário, às pausas durante a jornada de trabalho e às condições de conforto nos
locais de trabalho (28).
Na Bahia, somente a partir
da década de 90, a LER assume relevância crescente nas estatísticas relativas à
ocorrência de doenças profissionais, superando em incidência a surdez profissional e a
intoxicação pelo benzeno. Em 1991, o Centro de Estudos de Saúde do Trabalhador
(CESAT/Bahia) registrou 4,2% de casos de LER diagnosticados entre o total de casos de
doenças profissionais. Esse número subiu para 60,0% em 1996 (29).
A Questão das diferentes
abordagens
Entre os estudiosos da LER,
em todo o mundo, existem alguns grandes consensos sobre seus fatores causais mas, existem,
também, algumas grandes diferenças na abordagem dessas causas. Segundo COUTO (30), essas
diferentes abordagens das causas da LER podem ser sintetizadas em seis correntes
principais de pensamento, conforme explicitado a seguir.
1. ABORDAGEM CAUSAL
(NEOPOSITIVISTA) - países anglo-saxões
Para a corrente
neopositivista as LER seriam causadas, basicamente, por esforços intensos feitos com os
membros superiores, pelo trabalho em posturas desfavoráveis, pela alta repetitividade de
um mesmo padrão de movimento, por compressão mecânica das delicadas estruturas dos
membros superiores, além de outros fatores como ambientes frios, postura estática,
vibração segmentar, alguns fatores pessoais e alguns fatores organizacionais (Ergonomia
Americana). Para essa corrente as soluções para o problema da LER seriam ações
básicas sobre os postos de trabalho, reduzindo ou eliminando os fatores de risco, tais
como redução do esforço necessário na tarefa, correção da postura, revezamentos para
evitar alta repetitividade dos movimentos, medidas visando reduzir a compressão
mecânica, entre outras, conforme explicitado nos trabalhos de BAMMER (31).
2. ABORDAGEM SISTÊMICA
(FUNCIONALISTA) - Estados Unidos
AS LER são lesões que
ocorreriam quando o organismo é submetido a algum tipo de exigência física forçada, de
forma repetitiva ao longo da jornada, sem o devido tempo para reparo e recuperação das
estruturas orgânicas. A solução seria estabelecer uma carga de esforço que não
ultrapasse os limites de tolerância do ser humano, de acordo com ANDERSON (32).
3. ABORDAGEM HERMENÊUTICA
- França
As LER seriam
essencialmente decorrentes de formas inadequadas de organização do trabalho, que
resultam em sobrecarga para as estruturas orgânicas (Ergonomia Francesa). As soluções
seriam a reestruturação da organização do trabalho (redução do número de horas
extraordinárias e das dobras de turno, diminuição do ritmo de trabalho (esteiras),
instituição de pausas, correção da distribuição inadequada do trabalho, entre
outras), de acordo com MACIEL (33).
4. ABORDAGEM DIALÉTICA -
França, Estados Unidos e países anglo-saxões
As LER seriam a
manifestação da procura desenfreada de ganhos do capital, ao adotar, sem questionamento,
novas tecnologias gerenciais e de produção (especialmente a reengenharia e o
downsizing). A atual epidemia de LER estaria sendo uma manifestação de um desequilíbrio
na balança entre o que se exige do trabalhador e sua capacidade de trabalho que,
historicamente, já teve outros exemplos nas tentativas de ganho do capital, especialmente
à época de Taylor e Ford. A solução seria a vigilância das mudanças organizacionais
sobre o ser humano, de forma que as mesmas sejam implementadas com controle de seu impacto
sobre o homem e, também, sobre os sistemas sociais e ecológicos, ou seja, com a
formulação do consenso pode haver um ganho, conforme explicitado nos trabalhos de
SILVERSTEIN (34).
5. ABORDAGEM ACTANCIAL (DOS
ATORES SOCIAIS) - Itália e Brasil
As LER seriam o resultado
do comportamento de atores individuais e coletivos num contexto histórico. Na visão dos
sindicatos de trabalhadores, as LER seriam o resultado do sofrimento e da exploração
impostos à classe trabalhadora pelo capitalismo. A solução seria a eliminação do modo
de produção capitalista e a retomada do controle da organização do trabalho pela
classe trabalhadora, de acordo com RIBEIRO (35). Na visão dos sindicatos patronais, a LER
simplesmente nunca existiu e seria apenas um invenção dos sindicatos de trabalhadores
com o objetivo de desestabilizar as empresas. A solução seria, então, o enfraquecimento
dos sindicatos de trabalhadores e a eliminação do reconhecimento do nexo das lesões com
o trabalho pela Previdência Social.
6. ABORDAGEM ESTRUTURALISTA
- França
As LER seriam uma
manifestação da falência dos mecanismos psicológicos, individuais e coletivos, de
resistência dos trabalhadores diante de práticas administrativas e gerenciais
autoritárias, muito rígidas e opressivas existentes nas organizações (Psicologia
Organizacional). As soluções seriam as reestruturações do processo produtivo que
resultem em melhoria da qualidade de vida no trabalho, proporcionando-se maior identidade
com a tarefa, maior autoridade sobre o processo, ciclos completos e, a eliminação de
posturas extremamente rígidas normalmente existentes nas relações de trabalho, de
acordo com DEJOURS (36).
Em conclusão, pode-se
afirmar que, apesar das diferentes abordagens aqui apresentadas, diversos fatores causais
das LER estão hoje consensados e, entre eles destacam-se:
A. FATORES DE NATUREZA
ERGONÔMICA: força excessiva, alta repetitividade de um mesmo padrão de movimento,
posturas incorretas dos membros superiores, compressão das delicadas estruturas dos
membros superiores, frio, vibração, postura estática, entre outros.
B. FATORES DE NATUREZA
ORGANIZACIONAL: concentração de movimentos numa mesma pessoa, horas extraordinárias,
dobras de turno, ritmo apertado de trabalho, ausência das pausas necessárias, entre
outros.
C. FATORES DE NATUREZA
PSICOSSOCIAL: pressão excessiva para os resultados, ambiente excessivamente tenso,
problemas de relacionamento interpessoal, rigidez excessiva no sistema de trabalho, entre
outros.
Diagnóstico da LER
O diagnóstico da LER, como
assinala ADA ASSUNÇÃO (1992), é essencialmente clínico e, baseia-se na anamnese
ocupacional, nos exames complementares e na análise das condições de trabalho.
Associada ao estudo epidemiológico e à visita ao local de trabalho, a anamnese
ocupacional compõe os procedimentos básicos da investigação da LER. A dor é o
principal sintoma e, quase sempre é desencadeada ou agravada pelo movimento. Na maioria
dos casos há dificuldade em definir o tipo e a localização da dor, que costuma iniciar
gradualmente por uma região anatômica (punho, cotovelo e ombro) mas acaba atingindo todo
o membro superior. A sintomatologia dolorosa é agravada, em geral, pelo uso do membro
afetado, piorando com fatores como o frio, mudanças bruscas de temperatura e o estresse
emocional (1).
Convém assinalar que o
diagnóstico objetivo da localização das alterações que causam a dor em um paciente
com distúrbios músculoesqueléticos ocupacionais nem sempre é fácil. Por um lado,
existem trabalhadores com alterações tendíneas ou sinovites bem evidentes associadas
com a realização de esforços repetitivos ou com trabalho em postura inadequada, que
não deixam dúvida quanto ao diagnóstico. No entanto, existe também um considerável
contigente de trabalhadores que desenvolvem quadros clínicos dolorosos dos membros
superiores e que não apresentam os sinais objetivos da presença de afecção (tendinite,
sinovite ou compressão nervosa). Em verdade, na maioria das vezes os dados obtidos
limitam-se àqueles informados pelos trabalhadores durante a anamnese ocupacional pois, os
resultados do exame físico são geralmente inconclusivos e os exames complementares
(radiografia, ultrassonografia e eletroneuromiografia) também não conseguem elucidar de
maneira segura todas as situações.
Além da dor, os portadores
de LER queixam-se de parestesias, dores irradiadas, edema, rigidez e limitação dos
movimentos pela dor, com repercussões diretas sobre o trabalho. Podem ocorrer também
sintomas gerais associados como ansiedade, irritabilidade, alterações do humor e do
sono, fadiga crônica, e cefaléia tensional.
Estudos recentes têm
mostrado que as lesões por esforços repetitivos dos membros superiores vêm sendo
acompanhadas de altos índices de incapacidade laborativa e que a proporção de
incapacidade vem aumentando (38 ).
Em relação à análise do
trabalho, é essencial a recomposição do processo de trabalho e o estudo da maneira como
se organiza, sendo muito importante a participação direta dos trabalhadores que
vivenciam o cotidiano do trabalho. Recomenda-se analisar alguns aspectos básicos da
organização do trabalho como duração da jornada, conteúdo da tarefa, pausas durante a
jornada, o ritmo do trabalho e, a exigência ou não da produtividade. Em seguida,
passa-se a análise dos aspectos do ambiente de trabalho, ressaltando o posto de trabalho,
aí incluídos mobiliário, equipamentos e ferramentas. Além disso, é recomendável
estudar se as condições ambientais de iluminação, temperatura efetiva e ruído são
compatíveis com a tarefa executada.
Condutas
Médico-administrativas
Na opinião de COUTO (30),
a conduta médico-administrativa é um dos aspectos mais críticos da atuação do médico
do trabalho diante da questão das lesões de membros superiores de natureza ocupacional.
Além do aspecto técnico de tratamento médico da lesão, existem interações
importantes com a área operacional e com a área administrativa da própria empresa, com
a Previdência Social, com a fiscalização do trabalho, com o sistema de saúde e com a
representação dos trabalhadores. Além disso, o médico do trabalho deve estar atento
para os aspectos éticos e legais da questão.
Diante de um trabalhador
que apresenta dor ou desconforto em membros superiores, o médico do trabalho deve
responder duas perguntas básicas:
1º) O exame clínico é
compatível com as queixas do trabalhador ?
2º) Trata-se de um caso
relacionado ao trabalho ?
Entre os objetivos
principais da conduta médico-administrativa está atender a queixa de dor ou de
desconforto em membro superior o mais precocemente possível, evitando que o trabalhador
tenha agravamento ou cronificação de seu quadro. É importante também garantir o
retorno do trabalhador afastado, de preferência à mesma função, desde que os fatores
que ocasionaram o desencadeamento da dor tenham sido resolvidos.
No âmbito da empresa,
alguns procedimentos são considerados essenciais na questão das lesões por esforços
repetitivos e podem ser assim sumarizados:
1. Adoção de um protocolo
para padronizar a conduta médico-administrativa diante de um caso de LER;
2. Montagem de uma equipe
assistencial multidisciplinar
(ortopedista-reumatologista-fisiatra-psicólogo-serviços de radiologia,
eletroneuromiografia e fisioterapia, etc.) que possam atender ao trabalhador queixoso de
forma eficaz e precocemente, evitando que o mesmo se perca na rede assistencial;
3. Entrosamento eficiente
com o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), especialmente com as áreas
administrativas dos postos de benefícios, com o serviço de perícia médica e com o
centro de reabilitação profissional;
4. Criação de um "Comitê
Local de Ergonomia" que deverá ser formado por trabalhadores, supervisores,
gerentes, pessoal da área de recursos humanos e do setor de segurança no trabalho, sendo
essencial que todos os membros deste Comitê recebam um treinamento básico sobre
ergonomia e sobre as origens das lesões por esforços repetitivos;
5. Realização de um "Levantamento
Ergonômico" da empresa, ou seja, elaboração de um "mapa de risco
ergonômico" que contemple a realização de análise ergonômica de todos os postos
de trabalho da empresa assim como a adoção de um cronograma de medidas a serem
implantadas para eliminar os riscos ergonômicos.
Prevenção da LER
O método mais efetivo para
a prevenção da LER é o desenvolvimento de controles técnicos para identificar os
riscos ergonômicos (39, 40, 41).
Em síntese, a prevenção
da LER baseia-se em estudos para análise ergonômica do trabalho e na adoção de medidas
relativas a:
a) tempo de
exposição: introdução de pausas para descanso, redução da jornada de trabalho ou do
tempo de trabalho na atividade geradora de LER (42, 43);
b) alterações no
processo e organização do trabalho: modificações visando a diminuição da sobrecarga
muscular gerada por gestos e esforços repetitivos, mecanizando ou automatizando o
processo, reduzindo o ritmo de trabalho e as exigências de tempo, diversificando as
tarefas (44, 45);
c) adequação de
máquinas, mobiliários, dispositivos, equipamentos e ferramentas de trabalho às
características fisiológicas do trabalhador, de modo a reduzir a intensidade dos
esforços aplicados e corrigir posturas desfavoráveis na realização de gestos e
esforços repetitivos (46, 47).
Mais recentemente, estudos
tem demonstrado o valor dos treinamentos e dos exercícios posturais ergonômicos assim,
como das técnicas educativas na prevenção da LER (48, 49, 50).
MATERIAL E MÉTODO
O presente trabalho teve
como objetivos principais estudar a prevalência da LER entre os trabalhadores da Região
Metropolitana de Salvador (Bahia), assim como desenvolver ações de fiscalização dos
ambientes de trabalho, buscando prevenir a ocorrência de lesões por esforços
repetitivos. Além de prevenir a ocorrência de LER, buscou-se, ainda, desenvolver e
aprimorar condutas e instrumentos de fiscalização trabalhista.
Neste sentido, o estudo de
prevalência foi complementado por um conjunto de inspeções trabalhistas, realizadas de
junho a dezembro de 1998, com o objetivo de reconhecer, identificar e corrigir os riscos
ergonômicos presentes em 100 (cem) postos de trabalho.
I. ESTUDO DE PREVALÊNCIA
Utilizando dados
secundários dos arquivos do Serviço de Perícia Médica do Instituto Nacional de Seguro
Social (INSS), após analisar dados e informações de 9 (nove) Postos de Benefícios,
foram identificados 1.014 trabalhadores recebendo benefícios previdenciários
("benefícios ativos") por causa de LER na Região Metropolitana de Salvador,
Bahia.
Para fins deste trabalho,
entende-se por "benefício ativo" todo trabalhador segurado com nexo causal para
LER, devidamente comprovado pela perícia médica do INSS e, que em maio de 1998 estava
recebendo algum tipo de benefício previdenciário (auxílio-doença, auxílo-acidente ou
aposentadoria por invalidez).
Após a identificação dos
benefícios ativos, foram determinadas as características dos 1.014 indivíduos (nome,
idade, sexo, função, diagnóstico clínico e topográfico, data do diagnóstico e,
empresa e ramo econômico da empresa em que trabalhavam).
A partir dessas
informações foi constituído um banco de dados, utilizando o programa Epi Info, Versão
6. 03 (51).
Dessa forma, a seguir será
apresentada a descrição dos resultados obtidos entre a população estudada.
DISTRIBUIÇÃO DOS
TRABALHADORES PORTADORES DE LER, SEGUNDO SEXO E IDADE
Dos 1.014 trabalhadores
portadores de LER, 820 (80,9%) eram do sexo feminino enquanto 194 (19,1%) eram do sexo
masculino.
A idade dos trabalhadores
portadores de LER variou de 18 a 58 anos, sendo que a média de idade foi de 38,7 anos. A
grande maioria dos trabalhadores (80,4%) estavam distribuídos na faixa etária entre 30 e
46 anos.
DISTRIBUIÇÃO DOS
TRABALHADORES PORTADORES DE LER, SEGUNDO DIAGNÓSTICO CLÍNICO
Dos 1.014 trabalhadores
portadores de LER, 664 (65,5%) apresentaram sinovite/tenossinovite, 304 (30,0%) foram
acometidos por síndrome do túnel carpiano, 40 (3,9%) apresentaram cervicalgia e, 6
(0,6%) bursite.
A classificação do
diagnóstico clínico foi realizada pelos médicos do Serviço de Perícia Médica do
INSS, utilizando a Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de
Saúde (CID/OMS).
DISTRIBUIÇÃO DOS
TRABALHADORES PORTADORES DE LER, SEGUNDO DIAGNÓSTICO TOPOGRÁFICO
Dos 1.014 trabalhadores
portadores de LER, 968 (95,5%) apresentaram lesões em mãos ou punhos, 40 (3,9%)
apresentaram lesões em pescoço e, em 6 (0,6%) as lesões eram em ombros. Não foi
identificado benefício previdenciário concedido por lesão isolada em cotovelo
(epicondilite).
DISTRIBUIÇÃO DOS
TRABALHADORES PORTADORES DE LER, SEGUNDO DATA DO DIAGNÓSTICO
Foram identificados 1.014
"benefícios ativos" que iniciaram-se entre os anos de 1990 a 1998 (até o mês
de maio). Foi possível constatar que a LER assume relevância crescente nas estatísticas
a partir do ano de 1994, sendo que 932 (91,9%) dos benefícios por causa de LER na Região
Metropolitana de Salvador foram concedidos entre os anos de 1995 a 1997.
DISTRIBUIÇÃO DOS
TRABALHADORES PORTADORES DE LER, SEGUNDO FUNÇÃO
Entre os 1.014
trabalhadores portadores de LER, foram caracterizadas 67 diferentes funções. Entre as
funções que mais provocaram LER destacaram-se, principalmente, caixas de banco (20,0%),
escriturários (14,3%), auxiliares administrativos (10,1%), caixas de supermercado (8,6%),
digitadores (8,1%), atendentes (4,3%), operadores industriais (3,8%), telefonistas (3,4%),
auxiliares de produção (3,2%), secretárias ( 3,1%) e, caixas de loja (1,8%), entre
outras, conforme explicitado na TABELA O1.
DISTRIBUIÇÃO DOS
TRABALHADORES PORTADORES DE LER, SEGUNDO RAMO ECONÔMICO
No total, 241 empresas
apresentaram casos de LER entre seus empregados, sendo que essas empresas pertenciam a 35
diferentes ramos econômicos. Entre os ramos econômicos destacaram-se o bancário com 382
casos de LER (37,7% do total), supermercados (104 casos e 10,3% do total),
telecomunicações (71 casos e 7,0% do total), comércio varejista em geral (54 casos e
5,3% do total), petroquímico (38 casos e 3,7% do total), serviços de eletricidade (36
casos e 3,6% do total), têxtil (35 casos e 3,5% do total), prestação de serviços em
geral (33 casos e 3,3% do total), processamento de dados (31 casos e 3,1% do total),
serviços médicos (30 casos e 3,0% do total), químico (29 casos e 2,9% do total),
produção de alimentos (21 casos e 2,1% do total), construção civil (16 casos e 1,6% do
total), metalúrgico ( 13 casos e 1,3% do total), limpeza pública (12 casos e 1,2% do
total), transportes (11 casos e 1,1% do total), serviços de educação ( 10 casos e 1,0%
do total), mecânico (10 casos e 1,0% do total), cerâmico ( 9 casos e 0,9% do total),
saneamento básico (9 casos e 0,9% do total), produção de bebidas (9 casos e 0,9% do
total), serviços postais ( 8 casos e 0,8% do total) e, sindicatos ( 8 casos e 0,8% do
total), entre outros, conforme explicitado na TABELA 02.
II. ANÁLISE ERGONÔMICA
DOS POSTOS DE TRABALHO
Após a conclusão do
estudo de prevalência, o presente trabalho foi complementado por um conjunto de
inspeções trabalhistas com o objetivo de realizar a análise ergonômica dos postos de
trabalho que mais provocaram LER, assim como para notificar as empresas para providenciar
o reconhecimento, identificação e correção dos riscos ergonômicos.
As empresas e os postos de
trabalho foram selecionados e definidos a partir dos resultados do estudo de prevalência
da LER entre os trabalhadores da Região Metropolitana de Salvador(Bahia), conforme
anteriormente apresentado. Assim, foram selecionados para análise ergonômica 100 (cem)
postos de trabalho que corresponderam aos postos que mais freqüentemente provocaram LER
na população estudada.
As empresas selecionadas
foram inspecionadas por dois Agentes da Inspeção do Trabalho (Médicos do Trabalho) e,
notificadas para, num prazo de 60 (sessenta) dias, providenciar a realização da análise
ergonômica do trabalho, abordando, no mínimo, os aspectos relacionados ao mobiliário,
aos equipamentos, às condições ambientais dos postos de trabalho e, à própria
organização do trabalho. Além da realização da análise ergonômica do trabalho, as
empresas inspecionadas foram, ainda, notificadas para adotar medidas relativas a
adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos
trabalhadores,de acordo com os parâmetros estabelecidos pela NR-17 da Portaria nº
3214/78 do Ministério do Trabalho (28).
Tendo em vista que o
objetivo principal da prevenção da LER é identificar os trabalhos que necessitam de
intervenção para eliminar os riscos ergonômicos e, considerando que o questionário
("checklist") tem-se revelado um eficiente instrumento de triagem para
identificar trabalhos associados com o desenvolvimento de LER (52, 53, 54, 55), na coleta
de dados do presente trabalho foi utilizado um questionário padrão com informações
relativas à empresa inspecionada, ao trabalhador acometido de LER, ao posto de trabalho
analisado e, aos resultados da ação fiscal.
A partir dessas
informações, foi constituído um banco de dados, utilizando o programa Epi Info Versão
6.03 (51).
TABELA 01 - DISTRIBUIÇÃO
DOS TRABALHADORES PORTADORES DE LER, SEGUNDO FUNÇÃO, SALVADOR, BAHIA, 1998
FONTE: Instituto Nacional
do Seguro Social (INSS)
| FUNÇÃO |
N° |
% |
| 1.
CAIXA DE BANCO |
203 |
20,0 |
| 2.
ESCRITURÁRIO |
145 |
14,3 |
| 3.
AUX. ADMINISTRATIVO |
102 |
10,1 |
| 4.
CAIXA DE SUPERMERCADO |
87 |
8,6 |
| 5.
DIGITADOR |
82 |
8,1 |
| 6.
ATENDENTE |
44 |
4,3 |
| 7.
OPERADOR INDUSTRIAL |
39 |
3,8 |
| 8.
TELEFONISTA |
34 |
3,4 |
| 9.
AUX. DE PRODUÇÃO |
32 |
3,2 |
| 10.
SECRETÁRIA |
31 |
3,1 |
| 11.
CAIXA DE LOJA |
18 |
1,8 |
| 12.
SUPERVISOR |
17 |
1,7 |
| 13.
CONTROL. DE QUALIDADE |
10 |
1,0 |
| 14.
CONTADOR |
10 |
1,0 |
| 15.
GERENTE |
9 |
0,9 |
| 16.
RECEPCIONISTA |
9 |
0,9 |
| 17.
ANALISTA DE SISTEMAS |
9 |
0,9 |
| 18.
AUX. DE ENFERMAGEM |
8 |
0,8 |
| 19.
TECELÃ |
8 |
0,8 |
| 20.
AGENTE DE VARRIÇÃO |
7 |
0,7 |
| 21.
COZINHEIRA |
7 |
0,7 |
| 22.
AUX. FINANCEIRO |
7 |
0,7 |
| 23.
MECÂNICO INDUSTRIAL |
7 |
0,7 |
| 24.
SERVENTE |
6 |
0,6 |
| 25.
AJUDANTE DE DEPÓSITO |
4 |
0,4 |
| 26.
VENDEDOR |
4 |
0,4 |
| 27.
REPOSITOR |
4 |
0,4 |
| 28.
CARREGADOR |
4 |
0.4 |
| 29.
OP. TELEMARKETING |
4 |
0,4 |
| 30.
LIÇADEIRA |
4 |
0,4 |
| 31.
ARRUMADOR |
3 |
0,3 |
| 32.
ELETRICISTA |
3 |
0,3 |
| 33.
ENCANADOR |
3 |
0,3 |
| 34.
MOTORISTA |
3 |
0,3 |
| 35.
OP. TELEX |
3 |
0,3 |
| 36.
TEC. DE ENGENHARIA |
3 |
0,3 |
| 37.
TEC. DE LABORATÓRIO |
2 |
0,2 |
| 38.
COBRADOR |
2 |
0,2 |
| 39.
COSTUREIRA |
2 |
0,2 |
| 40.
DESENHISTA |
2 |
0,2 |
| 41.
INSTRUMENTISTA |
2 |
0,2 |
| 42.
PATISSEIRO |
2 |
0,2 |
| 43.
PROFESSORA |
2 |
0,2 |
| 44.
AUX. DE MANUTENÇÃO |
2 |
0,2 |
| 45.
OP. OFFSET |
2 |
0,2 |
| 46.
SOLDADOR |
2 |
0,2 |
| 47.
ADVOGADO |
1 |
0,1 |
| 48.
ASCENSORISTA |
1 |
0,1 |
| 49.
BATEDORISTA |
1 |
0,1 |
| 50.
BIBLIOTECÁRIA |
1 |
0,1 |
| 51.
CARPINTEIRO |
1 |
0,1 |
| 52.
COMPRADOR |
1 |
0,1 |
| 53.
CONTADOR DE TRÂNSITO |
1 |
0,1 |
| 54.
COPEIRA |
1 |
0,1 |
| 55.
DEMONSTRADORA |
1 |
0,1 |
| 56.
DENTISTA |
1 |
0,1 |
| 57.
ECONOMISTA |
1 |
0,1 |
| 58.
EMBALADEIRA |
1 |
0,1 |
| 59.
EMPACOTADOR |
1 |
0,1 |
| 60.
ESTATÍSTICO |
1 |
0,1 |
| 61.
FREZADOR |
1 |
0,1 |
| 62.
LAMINADOR |
1 |
0,1 |
| 63.
MAGAREFE |
1 |
0,1 |
| 64.
MANICURE |
1 |
0,1 |
| 65.
MENOR APRENDIZ |
1 |
0,1 |
| 66.
PROJETISTA |
1 |
0,1 |
| 67.
TEC. ELETRÔNICO |
1 |
0,1 |
| TOTAL |
1.014 |
100,0 |
TABELA 02 - DISTRIBUIÇÃO
DOS TRABALHADORES PORTADORES DE LER, SEGUNDO RAMO ECONÔMICO, SALVADOR, BAHIA, 1998
FONTE: Instituto Nacional
do Seguro Social (INSS)
| RAMO
ECONÔMICO |
Nº |
% |
| 1.
BANCÁRIO |
382 |
37,7 |
| 2.
SUPERMERCADO |
104 |
10,3 |
| 3.
TELECOMUNICAÇÕES |
71 |
7,0 |
| 4.
COMÉRCIO VAREJISTA |
54 |
5,3 |
| 5.
PETROQUÍMICO |
38 |
3,7 |
| 6.
SERV. DE ELETRICIDADE |
36 |
3,6 |
| 7.
TÊXTIL |
35 |
3,5 |
| 8.
SERVIÇOS EM GERAL |
33 |
3,3 |
| 9.
PROCESSAMENTO DE DADOS |
31 |
3,1 |
| 10.
SERVIÇOS MÉDICOS |
30 |
3,0 |
| 11.
QUÍMICO |
29 |
2,9 |
| 12.
PRODUÇÃO DE ALIMENTOS |
21 |
2,1 |
| 13.
CONSTRUÇÃO CIVIL |
16 |
1,6 |
| 14.
METALÚRGICO |
13 |
1,3 |
| 15.
LIMPEZA PÚBLICA |
12 |
1,2 |
| 16.
TRANSPORTES |
11 |
1,1 |
| 17.
SERVIÇOS DE EDUCAÇÃO |
10 |
1,0 |
| 18.
MECÂNICO |
10 |
1,0 |
| 19.
CERÂMICO |
9 |
0,9 |
| 20.
SANEAMENTO BÁSICO |
9 |
0,9 |
| 21.
PRODUÇÃO DE BEBIDAS |
9 |
0,9 |
| 22.
SERVIÇOS POSTAIS |
8 |
0,8 |
| 23.
SINDICATOS |
8 |
0,8 |
| 24.
CONDOMÍNIOS |
5 |
0,5 |
| 25.
GRÁFICO |
5 |
0,5 |
| 26.
PORTUÁRIO |
5 |
0,5 |
| 27.
FARMACÊUTICO |
4 |
0,4 |
| 28.
SERV. DE MANUTENÇÃO |
4 |
0,4 |
| 29.
BAR/RESTAURANTE |
3 |
0,3 |
| 30.
CARTÃO DE CRÉDITO |
2 |
0,2 |
| 31.
CONFECÇÕES |
2 |
0,2 |
| 32.
SEGUROS |
2 |
0,2 |
| 33.
EMBALAGENS |
1 |
0,1 |
| 34.
MINERAÇÃO |
1 |
0,1 |
| 35.
SIDERÚRGICO |
1 |
0,1 |
| TOTAL |
1.014 |
100,0 |
RESULTADOS DAS ANÁLISES
ERGONÔMICAS DOS POSTOS DE TRABALHO
Utilizando um
"checklist" específico, apresentado em anexo, foi realizada a análise
ergonômica de 100 (cem) postos de trabalho assim distribuídos:
20(20%) caixas de banco,
20(20%) escriturários (Bancos), 10(10%) caixas de supermercado, 10(10%) caixas de loja
(Comércio), 10(10%) digitadores, 10 (10%) telefonistas, 5 (5%) secretárias, 5 (5%)
auxiliares administrativos, 5 (5%) atendentes de serviço e, 5 (5%) operadores
industriais.
Segundo o ramo econômico a
que pertencia a empresa inspecionada, os postos de trabalho analisados foram assim
distribuídos:
44 (44%) Bancário, 13
(13%) Supermercado, 12 (12%) Comércio Varejista, 9 (9%) Eletricidade, 7 (7%) Indústria,
7 (7%) Serviços em Geral ( 3 Limpeza Pública, 2 Serviços Postais, 1 Saneamento Básico
e 1 Serviços Médicos), 4 (4%) Telecomunicações e, 4 (4%) Processamento de Dados.
ESTUDO DOS FATORES DE
NATUREZA ORGANIZACIONAL
Dos 102 itens constantes do
"checklist" utilizado no trabalho, 18 (17,6%) eram relacionados à questão da
organização do trabalho. Os resultados do estudo dos fatores de natureza organizacional
estão demonstrados na TABELA 03.
Em 31 (31%) postos de
trabalho foi observada a exigência de produtividade, especialmente entre os caixas de
banco, escriturários e operadores industriais.
O pagamento de prêmio
adicional por produtividade, no entanto, foi verificado apenas no caso de 3 (3%) dos
postos de trabalho analisados.
A grande maioria dos
trabalhadores (94%) informou que não existiam exigências de trabalho excessivamente
complexas em relação às suas próprias habilitações.
Em relação à duração
da jornada diária de trabalho, foi observado que em 54 (54%) dos postos de trabalho ela
era de 6 (seis) horas, em 41 (41%) era de 8 (oito) horas, em 4 (4%) era de 7 (sete) horas
e, em 1 (1%) era de 5 (cinco) horas. A pausa durante a jornada de trabalho foi observada
no caso de apenas 13 (13%) dos postos de trabalho avaliados. A realização de horas
extraordinárias foi observada em 62 (62%) dos postos de trabalho. A ocorrência de
trabalho noturno foi verificada em 19 (19%) e o trabalho de turno em 11 (11%) dos postos
de trabalho estudados.
Em 2 (2,2%) dos 90
(noventa) postos de trabalho que desenvolviam atividades de processamento eletrônico de
dados, foi observado que o empregador exigia um número de toques reais, no teclado,
superior a 8 (oito) mil por hora trabalhada.
Foram analisados, ainda, 5
(cinco) postos de trabalho em linhas de produção, sendo observado que em 4 (80%) era
possível à supervisão fazer algum tipo de regulagem na velocidade da esteira, além de
30% da velocidade-padrão; em 3 (60%) não existia uma pausa natural entre o final de um
ciclo e o início do ciclo seguinte; em 2 (40%) existia alguma posição com tempo
estrangulado; em 2 (40%) não existia um esquema alternativo previsto em termos de ritmo
da linha, quando ocorresse a falta de uma ou mais pessoas; em 1 (20%) não existia
revezamento das pessoas em diversas posições da linha e, em 1 (20%) era necessário
fazer alguma montagem estando as peças em movimento.
ESTUDO DOS FATORES DE
NATUREZA ERGONÔMICA
Dos 102 itens constantes do
"checklist" utilizado no trabalho, 77 (75,5%) eram relacionados aos fatores
ergonômicos dos próprios postos de trabalho.
Os resultados do estudo dos
fatores de natureza ergonômica estão demonstrados na TABELA 04.
Em 58 (58%) dos postos de
trabalho avaliados o trabalho era realizado sentado, em 12 (12%) em pé e, em 30 (30%)
alternado (sentado/em pé). Em 33 (33,3%) dos postos foi observado que o trabalhador não
tinha flexibilidade na sua postura durante a jornada de trabalho. No caso dos 12 (doze)
postos de trabalho que exigiam o trabalho em pé, em 5 (41,7%) não existiam assentos para
descanso durante as pausas.
A existência de movimentos
repetitivos foi observada em todos os postos de trabalho analisados. Quanto ao tipo de
movimento executado durante as tarefas, observou-se que em todos os casos (100%) ocorria a
flexão/extensão do punho, em 84 (84%) havia o desvio lateral do punho e, em 36 (36%)
estavam presentes os movimentos de elevação dos braços ou abdução dos ombros.
Em 27 (27%) dos postos
analisados foi observado que exigia-se muita força com as mãos e, em 10 (10%) era
exigido compressão digital fazendo força.
Quanto às posturas
forçadas, em 40 (40%) o trabalho exigia a cabeça excessivamente estendida e, em 27 (27%)
a cabeça excessivamente fletida.
Em 43 (43%) dos postos de
trabalho avaliados não havia rodízio (revezamento) nas tarefas, em 61 (61%) existia
contato da mão ou punho com alguma quina viva de objeto ou ferramenta, em 2 (2%) o
trabalho exigia o uso de luvas e, em nenhum posto de trabalho analisado foi observado o
uso de ferramentas vibratórias.
AVALIAÇÃO DAS CADEIRAS
Foram avaliadas 93 (noventa
e três) cadeiras em postos de trabalho, tendo sido observado o seguinte: 18 (19,4%) não
eram estofadas, 8 (8,6%) não eram giratórias, 28 (30,1%) não possuíam rodízios, em 15
(16,1%) a altura não era regulável, em 19 (20,4%) o apoio dorsal não fornecia um apoio
firme, em 14 (15,1%) a dimensão ântero-posterior do assento não era adequada, em 11
(11,8%) a largura da cadeira não era de dimensão correta, em 17 (18,3%) a borda anterior
do assento não era arredondada, em 5 (5,4%) o assento não era na posição horizontal,
em 4 (4,5%) o ângulo tronco-coxas não era de cerca de 100 graus, em 4 (4,5%) os braços
da cadeira prejudicavam a aproximação do trabalhador até seu posto de trabalho, em 26
(27,9%) não havia espaço suficiente para as pernas debaixo da mesa ou posto de trabalho
e, em 14 (15,1%) os pés não estavam sempre apoiados, conforme mostra a TABELA 05.
AVALIAÇÂO DAS MESAS DE
TRABALHO
Foram avaliadas 95 (noventa
e cinco) mesas de trabalho, tendo sido observado o seguinte: 20 (21,1%) não apresentavam
altura apropriada, 36 (37,9%) não tinham dimensões apropriadas, 55 (57,9%) não
apresentavam borda anterior arredondada, em 20 (21,1%) os acessórios (telefone,
máquinas, carimbos, etc.) não estavam dentro da área de alcance do trabalhador e, em 36
(37,9%) as gavetas não eram leves, conforme mostra a TABELA 06.
Foram avaliadas, ainda, 22
(vinte e duas) mesas de datilografia, sendo que 7 (31,8%) não eram adequadas, ou seja,
não eram mais baixas que a mesa habitual de trabalho.
AVALIAÇÃO DO TERMINAL OU
COMPUTADOR
Foram avaliados 91 (noventa
e um) postos de trabalho nos quais era utilizado o terminal ou computador, tendo sido
observado o seguinte: 26 (28,6%) dos monitores de vídeo não eram móveis, em 62 (68,1%)
a posição do monitor não estava na horizontal dos olhos do usuário, em 31 (34,1%) a
tela do monitor não estava perpendicular à janela, em 39 (42,9%) existiam reflexos na
tela, em 4 (4,4%) a tela não possuía bom padrão de legibilidade, em 8 (8,8%) a
distância dos olhos do usuário/tela não estava entre 45-70 cm e, em 9 (9,9%) as
distâncias olho-tela, olho-teclado e olho-documento não eram iguais, conforme mostra a
TABELA 07.
Em relação à posição
dos membros superiores, em 41 (45,1%) dos postos os braços do usuário não trabalhavam
na vertical (ângulo de 70-80 graus), em 33 (36,3%) os antebraços do usuário não
trabalhavam na horizontal e, em 76 (83,5%) os punhos não trabalhavam apoiados.
Quanto ao teclado, em 23
(25,3%) dos postos ele não era destacável da unidade de vídeo, em 54 (59,3%) o teclado
não tinha suporte próprio, em 51 (56,0%) a altura do suporte do teclado não era
regulável e, em 63 (69,2%) no suporte do teclado não cabia o mouse.
Em 85 (93,4%) dos postos
avaliados não existia suporte para os documentos-fonte. Entre os 3 (três) suportes para
documentos existentes, em 1 (33,3%) a altura, a distância e o ângulo do suporte não
podiam ser ajustados.
AVALIAÇÃO DAS LINHAS DE
PRODUÇÃO
Foram avaliados 5(cinco)
postos de trabalho em linhas de produção, tendo sido observado que em todos os casos
não existia uma adequação biomecânica geral, a cadeira não era adequada, a altura da
bancada não era compatível com as medidas antropométricas do operador, a postura do
tronco em relação à esteira era forçada e, não havia espaço suficiente para as
pernas do operador. Em 2 (40%) dos postos as peças estavam em locais que exigiam postura
forçada; em 3 (60%) dos postos os membros superiores tinham que sustentar pesos; em 4
(80%) ficava-se de pé, parado, durante a maior parte da jornada e, em 4 (80%) os braços
faziam movimentos acima do ombro, conforme mostra a TABELA 08.
Em todos os postos de linha
de produção analisados existia espaço adequado para a movimentação do operador, o
espaço entre um montador e outro era suficiente e, havia espaço para colocação das
peças refugadas.
AVALIAÇÃO DAS CONDIÇÕES
AMBIENTAIS
As condições ambientais
dos locais de trabalho não foram avaliadas quantitativamente. Foram utilizados 5 (cinco)
itens do "checklist" para indagar aos trabalhadores sobre as condições
ambientais de seus postos de trabalho.
No total, 36 (36%) dos
trabalhadores entrevistados declararam que o nível de ruído em seu posto de trabalho era
incômodo e 23 (23%) dos entrevistados informaram que a temperatura ambiente no local de
trabalho não era agradável. 16 (16%) dos trabalhadores relataram que a iluminação em
seu posto de trabalho não era suficiente. Em 7 (7%) dos postos de trabalho a circulação
do ar foi considerada insuficiente e em 9 (9%) a umidade relativa do ar não foi
considerada aceitável.
ESTUDO DOS FATORES DE
NATUREZA PSICOSSOCIAL
Dos 102 itens constantes do
"checklist" utilizado, apenas 2 (1,9%) eram relacionados com os fatores
psicossociais.
Quando os trabalhadores
foram indagados se existia excesso de pressão por parte das chefias, 12 (12%) responderam
que sim. Quanto aos relacionamentos interpessoais envolvendo outros trabalhadores, 10
(10%) referiram que existiam dificuldades nestes relacionamentos.
TABELA 03 - ESTUDO DOS
FATORES DE NATUREZA ORGANIZACIONAL, SALVADOR, BAHIA, 1998
FATORES
ORGANIZACIONAIS |
SIM(%) |
NÃO(%) |
1.
EXIGÊNCIA DE PRODUTIVIDADE |
31 |
69 |
2.
PRÊMIO ADICIONAL POR PRODUTIVIDADE |
3 |
97 |
3.
PAUSAS DURANTE A JORNADA DE TRABALHO |
13 |
87 |
4.
HORAS EXTRAORDINÁRIAS |
62 |
38 |
5.
TRABALHO NOTURNO |
19 |
81 |
6.
TRABALHO DE TURNO |
11 |
89 |
7.
Nº DE TOQUES SUPERIOR A 8.000 POR HORA |
2,2 |
97,8 |
TABELA 04 - ESTUDO DOS
FATORES DE NATUREZA ERGONÔMICA, SALVADOR, BAHIA, 1998
FATORES
ERGONÔMICOS |
SIM(%) |
NÃO(%) |
1.
TRABALHO REALIZADO SENTADO |
58 |
42 |
2.
FLEXIBILIDADE POSTURAL (SENTADO/EM PÉ) |
67 |
33 |
3.
ASSENTO PARA DESCANSO (TRABALHO EM PÉ) |
58,3 |
41,7 |
4.
MOVIMENTOS REPETITIVOS |
100 |
- |
5.
FLEXÃO/EXTENSÃO DO PUNHO |
100 |
- |
6.
DESVIO LATERAL DO PUNHO |
84 |
16 |
7.
ELEVAÇÃO DOS BRAÇOS OU ABDUÇÃO DOS OMBROS |
36 |
64 |
8.
MUITA FORÇA COM AS MÃOS |
27 |
73 |
9.
COMPRESSÃO DIGITAL FAZENDO FORÇA |
10 |
90 |
10.
CABEÇA EXCESSIVAMENTE ESTENDIDA |
40 |
60 |
11.
CABEÇA EXCESSIVAMENTE FLETIDA |
27 |
73 |
12.
RODÍZIO (REVEZAMENTO) NAS TAREFAS |
57 |
43 |
13.
CONTATO DA MÃO OU PUNHO COM QUINA VIVA |
61 |
39 |
14.
TAREFA EXIGE USO DE LUVAS |
2 |
98 |
15.TRABALHO
COM FERRAMENTAS VIBRATÓRIAS |
- |
100 |
TABELA 05 - FATORES DE
NATUREZA ERGONÔMICA: AVALIAÇÃO DAS CADEIRAS, SALVADOR, BAHIA, 1998
FATORES
ERGONÔMICOS |
SIM(%) |
NÃO(%) |
1.
CADEIRA ESTOFADA |
80,6 |
19,4 |
2.
ALTURA REGULÁVEL |
83,9 |
16,1 |
3.
DIMENSÃO ÂNTERO-POST. DO ASSENTO ADEQUADA |
84,9 |
15,1 |
4.
LARGURA DA CADEIRA DE DIMENSÃO CORRETA |
88,2 |
11,8 |
5.
BORDA ANTERIOR DO ASSENTO ARREDONDADA |
81,7 |
18,3 |
6.
ASSENTO NA POSIÇÃO HORIZONTAL |
94,6 |
5,4 |
7.
ÂNGULO TRONCO-COXAS DE CERCA DE 100 GRAUS |
95,5 |
4,5 |
8.
APOIO DORSAL FORNECE UM SUPORTE FIRME |
79,6 |
20,4 |
9.
CADEIRA GIRATÓRIA |
91,4 |
8,6 |
10.
EXISTEM RODÍZIOS |
69,9 |
30,1 |
| 11. BRAÇOS DA
CADEIRA PREJUDICAM APROXIMAÇÃO ATÉ O POSTO DE TRABALHO |
4,5 |
95,5 |
12.
OS PÉS ESTÃO SEMPRE APOIADOS |
84,9 |
15,1 |
| 13. ESPAÇO
SUFICIENTE PARA AS PERNAS DEBAIXO DA MESA OU DO POSTO DE TRABALHO |
72,1 |
27,9 |
TABELA 06 - FATORES DE
NATUREZA ERGONÔMICA: AVALIAÇÃO DAS MESAS DE TRABALHO, SALVADOR, BAHIA, 1998
FATORES
ERGONÔMICOS |
SIM(%) |
NÃO(%) |
1.
ALTURA APROPRIADA |
78,9 |
21,1 |
2.
DIMENSÕES APROPRIADAS |
62,1 |
37,9 |
3.
BORDA ANTERIOR DA MESA ARREDONDADA |
42,1 |
57,9 |
4.
ACESSÓRIOS DENTRO DA ÁREA DE ALCANCE |
78,9 |
21,1 |
5.
GAVETAS LEVES |
62,1 |
37,9 |
6.
MESA DE DATILOGRAFIA MAIS BAIXA |
68,2 |
31,8 |
TABELA 07 - FATORES DE
NATUREZA ERGONÔMICA: AVALIAÇÃO DO TERMINAL OU COMPUTADOR, SALVADOR, BAHIA, 1998
FATORES
ERGONÔMICOS |
SIM(%) |
NÃO(%) |
1.
MONITOR DE VÍDEO MÓVEL |
71,4 |
28,6 |
2.
POSIÇÃO DO MONITOR NA HORIZONTAL DOS OLHOS |
31,9 |
68,1 |
3.
TELA DO MONITOR PERPENDICULAR À JANELA |
65,9 |
34,1 |
4.
PRESENÇA DE REFLEXOS NA TELA |
42,9 |
57,1 |
5.
TELA COM BOM PADRÃO DE LEGIBILIDADE |
95,6 |
4,4 |
6.
DISTÂNCIA OLHOS /TELA ENTRE 45-70 CM |
91,2 |
8,8 |
7.
DISTÂNCIAS OLHO/TELA, OLHO/TECLADO E OLHO-DOCUMENTO SÃO IGUAIS |
90,1 |
9,9 |
| 8. BRAÇOS DO
USUÁRIO TRABALHAM NA VERTICAL (ÂNGULO DE 70-80 GRAUS) |
54,9 |
45,1 |
9.
ANTEBRAÇOS DO USUÁRIO NA HORIZONTAL |
63,7 |
36,3 |
10.
OS PUNHOS TRABALHAM APOIADOS |
16,5 |
83,5 |
11.
TECLADO DESTACÁVEL DA UNIDADE DE VÍDEO |
74,7 |
25,3 |
12.
TECLADO TEM SUPORTE PRÓPRIO |
40,7 |
59,3 |
13.
ALTURA DO SUPORTE DO TECLADO REGULÁVEL |
44,0 |
56,0 |
14.
NO SUPORTE DO TECLADO CABE O MOUSE |
30,8 |
69,2 |
15.
EXISTE SUPORTE PARA OS DOCUMENTOS-FONTE |
6,6 |
93,4 |
16.
SUPORTE PARA DOCUMENTOS AJUSTÁVEL |
66,7 |
33,3 |
TABELA 08 - FATORES DE
NATUREZA ERGONÔMICA: AVALIAÇÃO DA LINHA DE PRODUÇÃO, SALVADOR, BAHIA, 1998
FATORES
ERGONÔMICOS |
SIM(%) |
NÃO(%) |
1.
MEMBROS SUPERIORES TEM QUE SUSTENTAR PESOS |
60 |
40 |
2.
BRAÇOS FAZEM MOVIMENTOS ACIMA DO OMBRO |
80 |
20 |
| 3. PEÇAS ESTAVAM
EM LOCAIS QUE EXIGIAM POSTURA FORÇADA |
40 |
60 |
4.FICAVA-SE
EM PÉ, PARADO, DURANTE A MAIOR PARTE DA JORNADA |
80 |
20 |
5.ADEQUAÇÃO
BIOMECÂNICA GERAL |
- |
100 |
6.ALTURA
DA BANCADA COMPATÍVEL |
- |
100 |
7.
POSTURA DO TRONCO FORÇADA (ESTEIRA) |
100 |
- |
8.ESPAÇO
SUFICIENTE PARA AS PERNAS |
- |
100 |
CONCLUSÕES
As Lesões por Esforços
Repetitivos (LER) são afecções de origem ocupacional que atingem os membros superiores,
região escapular e pescoço, resultantes do desgaste muscular, tendinoso, articular e
neurológico provocado pela inadequação do trabalho ao ser humano.
O problema da incidência
da LER constitui um fenômeno universal, de grandes proporções, em constante crescimento
e, ganhou maior dimensão a partir da década de 60 com sua incidência crescente entre os
trabalhadores de países industrializados (Austrália, Japão, Estados Unidos, Suécia,
entre outros).
No Brasil, somente a partir
da década de 80 a LER passou a assumir relevância nas estatísticas sobre doenças
profissionais, sendo que esse fato pode ser explicado, em parte, pela rápida absorção
pelo nosso país das inovações tecnológicas, pela intensificação do ritmo de trabalho
e pela importante atuação dos trabalhadores.
No Estado da Bahia, a
partir da década de 90 a LER assume importância crescente nas estatísticas relativas à
ocorrência de doenças profissionais, superando em incidência a surdez profissional e a
intoxicação pelo benzeno.
Com base em dados do
Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) e do Centro de Estudos de Saúde do Trabalhador
(CESAT/Bahia), estima-se que a LER é hoje responsável por pelo menos 2/3 das doenças
profissionais diagnosticadas no Brasil e na Bahia.
No estudo de prevalência
realizado pelos autores deste trabalho foi possível identificar, em maio de 1998, 1.014
trabalhadores afastados do trabalho e recebendo benefícios previdenciários por causa de
LER na Região Metropolitana de Salvador, Bahia. Deste total de trabalhadores portadores
de LER, 80,9% eram do sexo feminino, com a idade média de 38,7 anos. Entre as funções
que mais provocaram LER destacaram-se, principalmente, caixas de banco, escriturários,
auxiliares administrativos, caixas de supermercado, caixas de loja comercial, digitadores,
atendentes de serviços, secretárias, telefonistas, operadores industriais e auxiliares
de produção.
Embora existam em todo o
mundo inúmeras abordagens das causas da LER, pode-se afirmar que alguns fatores causais
estão hoje consensados e, entre eles destacam-se:
FATORES DE NATUREZA
ERGONÔMICA: força excessiva, alta repetitividade de um mesmo padrão de movimento,
posturas incorretas dos membros superiores, compressão das delicadas estruturas dos
membros superiores, frio, vibração, postura estática, entre outros;
FATORES DE NATUREZA
ORGANIZACIONAL: concentração de movimentos numa mesma pessoa, horas extraordinárias,
dobras de turno, ritmo apertado de trabalho, ausência das pausas necessárias, entre
outros;
FATORES DE NATUREZA
PSICOSSOCIAL: pressão excessiva para os resultados, ambiente excessivamente tenso,
problemas de relacionamento interpessoal, rigidez excessiva no sistema de trabalho, entre
outros.
O diagnóstico objetivo da
LER nem sempre é fácil pois, é essencialmente clínico e, baseia-se na anamnese
ocupacional, nos exames complementares e na análise das condições de trabalho. A dor é
o principal sintoma e, costuma iniciar gradualmente por uma região anatômica (punho,
cotovelo e ombro) mas acaba atingindo todo o membro superior. Os dados obtidos, na maioria
das vezes, limitam-se àqueles informados pelos trabalhadores durante a anamnese
ocupacional pois, os resultados dos exames físicos são geralmente inconclusivos e os
exames complementares também não conseguem elucidar de maneira segura todas as
situações.
A conduta
médico-administrativa é um dos aspectos mais críticos da atuação do médico do
trabalho diante da questão das lesões de membros superiores de natureza ocupacional.
Entre os objetivos principais está atender a queixa de dor ou desconforto em membro
superior o mais precocemente possível, evitando que o trabalhador tenha agravamento ou
cronificação de seu quadro. É importante, também, garantir o retorno do trabalhador
afastado, de preferência à mesma função, desde que os fatores que ocasionaram o
desencadeamento da dor tenham sido resolvidos.
No âmbito da empresa,
diante de um trabalhador com queixa de dor ou desconforto em membros superiores, alguns
procedimentos são considerados essenciais e podem ser assim sumarizados:
1. Adoção de um protocolo
para padronizar a conduta médico-administrativa;
2. Montagem de uma equipe
assistencial multiprofissional;
3. Entrosamento eficiente
do serviço médico da empresa com o Instituto
Nacional de Seguro Social (INSS);
4. Criação de um
"Comitê Local de Ergonomia";
5. Realização de um
"Levantamento Ergonômico".
Os autores deste trabalho
realizaram a análise ergonômica de 100 (cem) postos de trabalho utilizando um
questionário padrão ("Checklist"). Na maioria dos postos de trabalho avaliados
foi possível evidenciar alguns fatores causais de lesões por esforços repetitivos,
sendo que esses fatores puderam ser classificados como de natureza organizacional,
ergonômica ou psicossocial.
Em relação aos fatores
organizacionais, destacaram-se a ausência de pausas durante a jornada de trabalho, a
freqüência excessiva de horas extraordinárias e a exigência de produtividade. Entre os
fatores de natureza ergonômica foi possível ressaltar a falta de flexibilidade postural
(sentado/em pé), a ausência de revezamento nas tarefas, o contato da mão ou punho com
quina viva do mobiliário e, a ocorrência de movimentos repetitivos, especialmente os de
flexão/extensão do punho, de desvio lateral do punho e de elevação dos braços ou
abdução dos ombros. Inúmeros fatores antiergonômicos foram constatados também na
avaliação de cadeiras, mesas, terminais ou computadores e, das condições ambientais de
trabalho. Quanto aos fatores de natureza psicossocial, apesar das evidentes dificuldades
em sua avaliação, destacaram-se a existência de excesso de pressão por parte das
chefias e as dificuldades nos relacionamentos interpessoais entre os próprios
trabalhadores.
Em síntese, pode se
afirmar que a prevenção da LER baseia-se em estudos para a análise ergonômica do
trabalho e na adoção de medidas para eliminar os riscos ergonômicos.
Em relação à análise
ergonômica do trabalho, é essencial a recomposição do processo de trabalho e o estudo
da maneira como se organiza, sendo muito importante a participação direta dos
trabalhadores que vivenciam o cotidiano do trabalho. Recomenda-se analisar alguns aspectos
básicos da organização do trabalho como duração da jornada, conteúdo da tarefa,
pausa durante a jornada, o ritmo do trabalho e, a exigência ou não da produtividade. Em
seguida, passa-se a análise dos aspectos do ambiente de trabalho, ressaltando o posto de
trabalho, aí incluídos mobiliário, equipamentos e ferramentas. Além disso, é
recomendável estudar se as condições ambientais de iluminação, temperatura efetiva,
ventilação, umidade e ruído são compatíveis com a tarefa executada.
Em conclusão, a LER
representa não só uma doença mas um fenômeno social, com repercussões importantes
tanto na esfera social como na de relações do trabalho. A prevenção é a principal
medida que qualquer empresa pode adotar em relação às lesões por esforços repetitivos
e consiste basicamente da correção, no trabalho, dos fatores antiergonômicos que podem
ser capazes de desencadear uma lesão.
CHECK-LIST / LESÕES POR ESFORÇOS REPETITIVOS-LER
DATA:
Nº:
EMPRESA
1. RAZÃO SOCIAL:
CNPJ:
2. RAMO:
CNAE:
N.J:
ENDEREÇO:
Nº DE TRAB.:
TOTAL:
HOMENS:
MULHERES:
MENORES:
Nº DE TRAB. COM LER:
POSTOS DE TRABALHO ATINGIDOS:
_________________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________________
TRABALHADOR LESIONADO
3. NOME:
4. SEXO:
5. IDADE:
6. FUNÇÃO:
7. DIAGNÓSTICO:
DATA DIAGN:
SITUAÇÃO ATUAL NO TRABALHO:
_________________________________________________________________________________
ANÁLISE
ERGONÔMICA
AVALIAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO DO
TRABALHO |
SIM |
NÃO |
| EXIGÊNCIAS DE TRABALHO EXCESSIVAMENTE COMPLEXAS EM RELAÇÃO À
HABILITAÇÃO DOS FUNCIONÁRIOS? |
|
|
| EXIGÊNCIAS DE PRODUTIVIDADE? |
|
|
| EXISTE PREMIO ADICIONAL POR PRODUTIVIDADE? |
|
|
| JORNADA DIÁRIA DE TRABALHO EXCESSIVA? DURAÇÃO EM HORAS: |
|
|
| EXISTE PAUSA DURANTE A JORNADA DE TRABALHO? |
|
|
| EXISTE HORAS EXTRAS? |
|
|
| EXISTE TRABALHO NOTURNO? |
|
|
| EXISTE TRABALHO DE TURNO? |
|
|
| EXISTE EXCESSO DE PRESSÃO DAS CHEFIAS? |
|
|
| EXISTE DIFICULDADES NOS RELACIONAMENTOS INTERPESSOAIS? |
|
|
| EXISTE MOVIMENTOS REPETITIVOS? |
|
|
| HÁ RODIZIO (REVEZAMENTO) NAS TAREFAS? |
|
|
| EXISTE CONTATO DA MÃO OU PUNHO OU TECIDOS MOLES COM ALGUMA QUINA
VIVA DE OBJETO OU FERRAMENTA? |
|
|
| O TRABALHO EXIGE O USO DE FERRAMENTAS VIBRATÓRIAS? |
|
|
| O
TRABALHO É REALIZADO EM PÉ? |
|
|
| O TRABALHO É REALIZADO SENTADO? |
|
|
| O TRABALHO É REALIZADO ALTERNADO (EM PÉ/SENTADO)? |
|
|
| O TRABALHADOR TEM FLEXIBILIDADE NA SUA POSTURA DURANTE A JORNADA? |
|
|
| NO CASO DE TRABALHO EM PÉ, EXISTEM ASSENTOS PARA DESCANSO
DURANTE AS PAUSAS? |
|
|
| O TRABALHO EXIGE POSTURAS FORÇADAS DOS MEMBROS SUPERIORES? |
|
|
| O TRABALHO EXIGE MUITA FORÇA COM AS MÃOS? |
|
|
| FLEXÃO OU EXTENSÃO DO PUNHO? |
|
|
| DESVIO LATERAL DO PUNHO? |
|
|
| ELEVAÇÃO DOS BRAÇOS OU ABDUÇÃO DOS OMBROS? |
|
|
| CABEÇA EXCESSIVAMENTE ESTENDIDA? |
|
|
| CABEÇA EXCESSIVAMENTE FLETIDA? |
|
|
| COMPRESSÃO DIGITAL FAZENDO FORÇA? |
|
|
| OUTRAS COMPRESSÕES? QUAL? |
|
|
| AVALIAÇÃO DA CADEIRA |
SIM |
NÃO |
| CADEIRA ESTOFADA? |
|
|
| ALTURA REGULÁVEL? |
|
|
| DIMENSÃO ANTERO-POSTERIOR DO ASSENTO ADEQUADA? |
|
|
| LARGURA DA CADEIRA DE DIMENSÃO CORRETA? |
|
|
| BORDA ANTERIOR DO ASSENTO ARREDONDADA? |
|
|
| ASSENTO NA POSIÇÃO HORIZONTAL? |
|
|
| APOIO DORSAL FORNECE UM SUPORTE FIRME? |
|
|
| CADEIRA GIRATÓRIA? |
|
|
| EXISTEM RODÍZIOS? |
|
|
| OS BRAÇOS DA CADEIRA PREJUDICAM A APROXIMAÇÃO DO TRABALHADOR
ATÉ SEU POSTO DE TRABALHO? |
|
|
| OS PÉS ESTÃO SEMPRE APOIADOS? |
|
|
| AVALIAÇÃO DAS MESAS |
SIM |
NÃO |
| ALTURA APROPRIADA? |
|
|
| DIMENSÕES APROPRIADAS? |
|
|
| BORDA ANTERIOR DA MESA ARREDONDADA? |
|
|
| ACESSÓRIOS (TELEFONE, MÁQUINAS, ETC) DENTRO DA ÁREA DE ALCANCE? |
|
|
| GAVETAS LEVES? |
|
|
| MESA DE DATILOGRAFIA MAIS BAIXA? |
|
|
| AVALIAÇÃO DO TERMINAL OU COMPUTADOR |
SIM |
NÃO |
| Nº DE TOQUES POR HORA É MAIOR QUE 8.000? |
|
|
| O MONITOR É MÓVEL? |
|
|
| A POSIÇÃO DO MONITOR DE VIDEO ESTÁ NA HORIZONTAL DOS OLHOS? |
|
|
| A TELA DO MONITOR DE VÍDEO ESTÁ PERPENDICULAR À JANELA? |
|
|
| EXISTEM REFLEXOS NA TELA? |
|
|
| A TELA POSSUE BOM PADRÃO DE LEGIBILIDADE? |
|
|
| A DISTÂNCIA OLHOS DO USUÁRIO/TELA É ENTRE 45-70 CM? |
|
|
| AS DISTÂNCIAS OLHO-TELA, OLHO-TECLADO E OLHO-DOCUMENTO SÃO
IGUAIS? |
|
|
| OS BRAÇOS DO USUÁRIO TRABALHAM NA VERTICAL?(ÂNGULO DE 70-80
GRAUS) |
|
|
| OS ANTEBRAÇOS DO USUÁRIO TRABALHAM NA HORIZONTAL? |
|
|
| OS PUNHOS TRABALHAM APOIADOS? |
|
|
| NA POSIÇÃO SENTADO, O ÂNGULO TRONCO-COXAS É DE CERCA DE 100
GRAUS? |
|
|
| TECLADO É DESTACÁVEL DA UNIDADE DE VÍDEO? |
|
|
| TECLADO TEM SUPORTE PRÓPRIO? |
|
|
| A ALTURA DO SUPORTE DO TECLADO É REGULÁVEL? |
|
|
| NO SUPORTE DO TECLADO CABE O MOUSE? |
|
|
| EXISTE SUPORTE PARA OS DOCUMENTOS-FONTE? |
|
|
| A ALTURA, DISTANCIA E ÂNGULO DO SUPORTE PARA DOCUMENTOS PODE SER
AJUSTADO? |
|
|
| AVALIAÇÃO DA LINHA DE PRODUÇÃO |
SIM |
NÃO |
| EXISTE UMA PAUSA NATURAL ENTRE O FINAL DE UM CICLO E O INICIO DO
CICLO SEGUINTE? |
|
|
| É NECESSÁRIO FAZER ALGUMA MONTAGEM ESTANDO A PEÇA EM MOVIMENTO? |
|
|
| É POSSÍVEL À SUPERVISÃO FAZER ALGUM TIPO DE REGULAGEM NA
VELOCIDADE DA ESTEIRA ALÉM DE 30% DA VELOCIDADE-PADRÃO? |
|
|
| É POSSÍVEL AO TRABALHADOR SAIR DO SEU POSTO PARA NECESSIDADES
FISIOLÓGICAS? |
|
|
| HÁ ALGUMA POSIÇÃO COM O TEMPO ESTRANGULADO? |
|
|
| EXISTE UM ESQUEMA ALTERNATIVO PREVISTO EM TERMOS DE RITMO DA LINHA
QUANDO OCORRER A FALTA DE UMA OU MAIS PESSOAS? |
|
|
| EXISTE REVEZAMENTO DAS PESSOAS EM DIVERSAS POSIÇÕES DA LINHA? |
|
|
| OS MEMBROS SUPERIORES TÊM QUE SUSTENTAR PESOS? |
|
|
| OS BRAÇOS TÊM QUE FAZER ALGUM MOVIMENTO ACIMA DO NÍVEL DOS
OMBROS? |
|
|
| OS OBJETOS E MATERIAIS DE USO FREQUENTE ESTÃO DENTRO DA ÁREA DE
ALCANCE? |
|
|
| AS PEÇAS (COMPONENTES A SEREM MOVIMENTADOS) ESTÃO EM LOCAIS QUE
EXIGEM POSTURA FORÇADA? |
|
|
| FICA-SE DE PÉ, PARADO, DURANTE A MAIOR PARTE DA JORNADA? |
|
|
| ESTANDO DE PÉ, APERTA-SE PEDAL NUMA FREQUÊNCIA MAIOR QUE 3 VEZES
POR MINUTO? |
|
|
NO CASO DE TRABALHO SENTADO
(NA LINHA DE PRODUÇÃO) |
SIM |
NÃO |
| ESTANDO SENTADO, FICA-SE EM POSIÇÃO ESTÁTICA? |
|
|
| A CADEIRA É ADEQUADA? |
|
|
| A CADEIRA ESTÁ PRÓXIMA À BANCADA? |
|
|
| HÁ APOIO PARA OS PÉS? |
|
|
| A POSTURA DO TRONCO EM RELAÇÃO À ESTEIRA É FORÇADA? |
|
|
| HÁ ESPAÇO SUFICIENTE PARA AS PERNAS? |
|
|
| O TRABALHADOR TEM QUE SE AFASTAR DO EIXO VERTICAL NATURAL OU TEM
QUE SE DESENCOSTAR DA CADEIRA PARA BUSCAR A PEÇA NA ESTEIRA? |
|
|
| A ALTURA DA BANCADA É COMPATÍVEL COM AS MEDIDAS ANTROPOMÉTRICAS
DO OPERADOR? |
|
|
| EXISTE UMA ADEQUAÇÃO BIOMECÂNICA GERAL?(PESSOAS ALTAS EM
POSIÇÕES ALTAS) |
|
|
| EXISTE ESPAÇO PARA A MOVIMENTAÇÃO DO OPERADOR? |
|
|
| O ESPAÇO ENTRE UM MONTADOR E OUTRO É SUFICIENTE? |
|
|
| O ESPAÇO PARA MOVIMENTAÇÃO DAS PEÇAS É SUFICIENTE? |
|
|
| HÁ ESPAÇO PARA A COLOCAÇÃO DE PEÇAS REFUGADAS? |
|
|
| É POSSÍVEL AO TRABALHADOR SINALIZAR A DIMINUIÇÃO EM NÍVEIS
CRÍTICOS DE MATERIAL SOBRE SUA BANCADA? |
|
|
| É POSSÍVEL AO TRABALHADOR DEIXAR DE LADO, REJEITAR OU
SIMPLESMENTE NÃO TRABALHAR UMA PEÇA OU NÃO FAZER SUA OPERAÇÃO QUANDO NÃO TIVER TIDO
O TEMPO NECESSÁRIO OU QUANDO TIVER ENCONTRADO ALGUM GRAU DE DIFICULDADE? |
|
|
| AVALIAÇÃO DAS CONDIÇÕES AMBIENTAIS |
SIM |
NÃO |
| A TEMPERATURA EFETIVA DO AMBIENTE ESTÁ ENTRE 20 E 23 GRAUS?
MEDIÇÃO: |
|
|
| A UMIDADE RELATIVA DO AR É ACEITÁVEL (ACIMA DE 40%)?
MEDIÇÃO: |
|
|
| A CIRCULAÇÃO DO AR OCORRE DE FORMA SUFICIENTE? (NÃO-SUPERIOR A
0,75 METROS/SEGUNDO) MEDIÇÃO: |
|
|
| A ILUMINAÇÃO É SUFICIENTE (ENTRE 450-550 LUX)? MEDIÇÃO: |
|
|
| NÍVEL DE RUÍDO É MENOR QUE 65 dB(A)? MEDIÇÃO: |
|
|
RECOMENDAÇÕES:
REFERÊNCIAS
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