Universo Online
Web Sites Pessoais

Câncer Ocupacional

                                                 

 

 

Reflexões sobre o câncer ocupacional

Marco Antônio Rêgo

 

A exposição a substâncias carcinogênicas é reconhecidamente maior nos ambientes de trabalho, e muitas destas foram assim classificadas a partir de estudos epidemiológicos realizados com populações trabalhadoras. Tipicamente considerada como uma doença do mundo desenvolvido, industrializado, o câncer tem sido visto como um problema crescente nos países considerados em desenvolvimento. Muitos processos de trabalho existentes nos países industrializados são também encontrados nos países periféricos, com o agravante de que nestes, a proteção à saúde dos trabalhadores e o cumprimento das leis vigentes ocorrem precariamente. Enquanto alguns países têm um extenso corpo de leis estabelecido, com objetivo de proteger as pessoas contra os riscos ocupacionais, ambientais e daqueles decorrentes do consumo, outros países o fazem precariamente, o que se traduz em conseqüências indesejáveis. Em termos de riscos químicos em geral, a Organização Panamericana da Saúde reconhece que o manuseio de substâncias químicas tem sido um dos maiores riscos aos seres humanos na América Latina.

A ocorrência do câncer ocupacional, reconhecida há mais de dois séculos por Percival Pott em 1775, deve ser vista não como um simples efeito de exposições específicas ou simplesmente como decorrente da industrialização, mas como um processo que decorre da associação e interação entre a exposição ocupacional a agentes químicos e a vulnerabilidade das populações expostas, por exemplo quanto à carência alimentar e à ocorrência de doenças infecto-contagiosas. É provável que a exposição ambiental/ocupacional a agentes químicos de uma forma geral esteja contribuindo também para o adoecimento da população, sem que uma relação entre causa e efeito seja estabelecida. A difusão de substâncias químicas não ocorre exclusivamente através das conhecidas formas de poluição. As relações comerciais entre grandes indústrias e outras de menor porte, a distribuição de produtos no varejo e a utilização freqüente, e de certa forma banalizada de agentes químicos, como se fossem agentes inofensivos, sejam talvez as formas mais determinantes da exposição da população em geral. É importante ressaltar que a ação dos carcinogênicos ultrapassa os limites dos ambientes industriais onde são produzidos e atingem outras fábricas que os utilizam como matérias primas, os trabalhadores do setor de serviços e, em alguns casos, a população "não-trabalhadora".

Para Berlinguer (1978):

"Esta difusão do dano, se se quer individualizar a origem da nova ‘cadeia epidemiológica’, que se deve enfrentar, coloca-se em termos bastante diferentes dos usados no enfoque atual do problema ecológico. O conceito de proteção da natureza implica o reconhecimento de que a primeira natureza violada na sua integridade é a natureza do homem e entre os homens, a dos operários. Implica o fato de que a primeira ruptura do equilíbrio entre homem e ambiente, entre faculdades vitais e recursos naturais sucede no trabalho e nos lugares de produção (as fábricas) e que a partir destes difundem-se à esfera do consumo e à dimensão do tempo livre."

O Brasil, com uma história de industrialização que data de aproximadamente 50 anos, apresenta as condições favoráveis à ocorrência de câncer entre os trabalhadores. Considerando-se, entretanto, que só recentemente as doenças relacionadas ao trabalho vêm sendo reconhecidas, não é de se estranhar que a associação entre casos de câncer e ocupação não tem sido estabelecida. O desenvolvimento econômico verificado no país se superpõe a uma realidade onde se evidencia a falta de moradia, a deficiência de saneamento básico, a fome e o desemprego. Este paralelismo, impõe a concomitância de processos mórbidos na população, como as doenças infecto-contagiosas e carenciais, próprias da pobreza, com outras ditas inerentes aos países desenvolvidos ou industrializados, como as crônico-degenerativas, que aumentam não apenas nas camadas mais privilegiadas da sociedade, mas também na classe trabalhadora, inclusive atingindo faixas etárias cada vez mais jovens. Neste contexto, o câncer está se tornando uma importante causa de morte também no terceiro mundo, em parte pela diminuição da mortalidade por outras causas e pelo conseqüente envelhecimento da população, mas também pela maior exposição a carcinogênicos ocupacionais e ao tabaco, paralelamente a outros fatores.

Portanto, é de fundamental importância a construção de um sistema de vigilância destes agravos que cumpra dois objetivos principais: a identificação e controle de ambientes de trabalho onde existe potencial exposição a agentes carcinogênicos e a sistematização de informações necessárias à realização de estudos epidemiológicos de caráter exploratório ou analítico. Na região do entorno de Salvador alguns estudos vem sendo realizados. Como exemplo cita-se o estudo "Linfoma não-Hodgkin e Exposição Ocupacional a Solventes Orgânicos", cujo resumo encontra-se a seguir.

 

LINFOMA NÃO-HODGKIN E EXPOSIÇÃO OCUPACIONAL

A SOLVENTES ORGÂNICOS

 

O aumento das taxas de incidência dos linfomas não-Hodgkin (LNH) tem sido demonstrado em todo o mundo. Entre outros fatores, suspeita-se do envolvimento da exposição a solventes orgânicos. O objetivo deste estudo de caso-controle foi o de verificar a associação entre a exposição a solventes orgânicos e ocorrência de LNH. O grupo caso foi composto de 109 indivíduos do sexo masculino, diagnosticados entre 1990 e 1996 em Salvador e região circunvizinha, Bahia, Brasil. O grupo controle foi formado por 276 pacientes com outros cânceres, diagnosticados à mesma época dos casos. A exposição a solventes orgânicos foi avaliada através de questionários padronizados que foram analisados por higienistas industriais, que definiram três níveis de exposição e um de não exposição, considerando toda a vida laboral dos indivíduos. Encontrou-se associação positiva entre exposição ocupacional a solventes orgânicos e LNH, OR= 1,67 (95% CI= 0,97-2,87), especialmente entre os menores de 64 anos, OR= 1,91 (95% CI= 0,99-3,67), entre os usuários de inseticida doméstico, OR= 2,24 (95% CI= 1,01-3,97), para a localização ganglionar, OR= 1,72 (95% CI= 0,87-3,38) e para o padrão difuso, OR= 1,74 (95% CI= 0,97-3,13). A análise de latência e a evidência de relação dose-resposta reforçaram estes resultados. Avaliação de interação utilizando-se a escala aditiva revelou sinergismo entre exposição ocupacional a solventes e exposição a outros agentes. Concluiu-se que os solventes orgânicos podem contribuir na causação dos LNH e que o sinergismo com outros fatores pode se constituir em um importante aspecto do processo de linfomagênese.

 
AG00029_.gif (4339 bytes)
Envie e-mail para anderson@periciamedica.com
Atualizado em: outubro 08, 2002
Webmaster: avlis64@uol.com.br

Home| Serviços| Legislação| Links| Artigos| Livro de visitas| Bate-Papo| Fórum| Fale comigo