EXPOSIÇÃO
OCUPACIONAL AO BENZENO EM TRABALHADORES DO COMPLEXO PETROQUÍMICO DE CAMAÇARI, BAHIACarlos Roberto Miranda
RESUMO
O presente trabalho
constitui-se em um estudo de prevalência, realizado a partir de dados hematimétricos
referentes a 7.356 trabalhadores de nove empresas do Complexo Petroquímico de Camaçari,
Bahia. Do total de trabalhadores avaliados, 216 deles (2,9%) apresentaram valores
leucocitários abaixo de 4.000 e/ou número de neutrófilos abaixo de 2.000. Para estes
últimos, caracterizou-se evidente exposição ocupacional ao benzeno, sendo que todos
foram afastados da exposição e encaminhados para investigação hematológica mais
aprofundada. O presente estudo permitiu evidenciar o valor do método de vigilância
epidemiológica na inspeção trabalhista dos ambientes de trabalho.
PALAVRAS-CHAVES:
Exposição a Benzeno, Indústria Petroquímica, Fiscalização Trabalhista, Alterações
Hematimétricas Induzidas pelo Benzeno.
OCCUPATIONAL EXPOSURE TO BENZENE IN
PETROCHEMICAL COMPLEX OF CAMAÇARI, BAHIA
SUMMARY
The hematimetric evaluation
was conducted in 7.356 workers of nine petrochemical enterprises of Camaçari, Bahia. 216
workers (2,9% of examined workers) to present leukocytes number below 4.000 and/or
neutrophiles number below 2.000. For these workers, the occupational exposure to benzene
was confirmed. These results reveal the value of epidemiologic vigilance method in medical
inspection of Ministry of Labor.
KEY-WORDS: Exposure
to Benzene, Petrochemical Plant, Medical Inspection, Benzene Induced Hematimetrics
Alterations.
AUTORES:
Carlos Roberto Miranda*
Carlos Roberto Dias*
Luiz Carlos Correia Oliveira*
Paulo Gilvane Lopes Pena*
* Médico do Trabalho da Delegacia Regional
do Trabalho no Estado da Bahia(DRT/BA)
EXPOSIÇÃO OCUPACIONAL AO BENZENO EM
TRABALHADORES DO COMPLEXO PETROQUÍMICO DE CAMAÇARI, BAHIA
INTRODUÇÃO
A intoxicação pelo
benzeno ou benzenismo é o conjunto de manifestações clínicas e/ou sinais laboratoriais
compatíveis com os efeitos da exposição ao benzeno em trabalhadores de empresas que o
produzem, transformem, distribuem, manuseiem ou consumam. (1)
O benzeno é um
hidrocarboneto cíclico aromático, líquido, incolor, volátil, com odor agradável e
altamente inflamável. É produzido, principalmente, pela destilação do petróleo ou na
siderurgia (como produto secundário do coque). É utilizado nas indústrias químicas
como matéria-prima para fabricação de plásticos e outros compostos orgânicos e, nas
indústrias da borracha e de tintas e vernizes como solvente. No setor sucroalcooleiro, o
benzeno é utilizado para a produção do álcool anidro. Pode ser encontrado, também,
como constituinte de vários derivados de petróleo (aditivo da gasolina em alguns
países).
A intoxicação humana pelo
benzeno pode ocorrer por três vias de absorção: respiratória (aspiração por
vapores), cutânea e digestiva. A via respiratória é a principal, do ponto de vista
toxicológico, sendo retido 46% do benzeno inalado. Uma vez absorvido, quase imediatamente
é eliminado em 50% pelos pulmões. O benzeno que permanece no corpo, distribui-se por
vários tecidos. Na intoxicação aguda, a maior parte é retida no sistema nervoso
central, enquanto que na intoxicação crônica permanece na medula óssea (40%), no
fígado (43%) e nos tecidos gordurosos (10%). Após sua absorção, parte do benzeno
distribuído pelo organismo é metabolizado pelos microssomas do fígado e cerca de 30% é
transformado em fenol e em derivados como pirocatecol, hidroquinona e hidroxiquinona, os
quais são eliminados pela urina nas primeiras horas até 24 horas após cessada a
exposição.(2, 3, 4)
As intoxicações agudas,
em geral acidentais e graves, caracterizam-se sobretudo pelos seus efeitos narcóticos
(tontura, desmaios, narcose e coma). A dose letal oral varia de 50 a 500 mg/kg, sendo que
a inalação de 20.000 ppm é fatal entre 5 e 10 minutos. (5, 6)
A exposição prolongada ao
benzeno provoca diversos efeitos no organismo humano, destacando-se entre eles a
mielotoxidade, a genotoxidade e a sua ação carcinogênica. São conhecidos, ainda,
efeitos sobre diversos órgãos como sistema nervoso central, e os sistemas endócrino e
imunológico. No entanto, não existem sinais ou sintomas típicos da intoxicação
crônica pelo benzeno. As manifestações neurológicas são leves e bem toleradas. Pode
ocorrer, também, toxicidade hepática e renal, mas os efeitos sobre o sistema sangüíneo
são os mais importantes. (7, 8, 9, 10, 11) O efeito mais grave do benzeno sobre a medula
óssea é a sua depressão generalizada que se manifesta como redução de eritrócitos,
granulócitos, trombócitos, linfócitos e monócitos. A neutropenia e a leucopenia tem
sido os sinais de efeito observados com mais freqüência entre os trabalhadores expostos
ao benzeno. Também são sinais hematológicos de efeito as alterações qualitativas nas
células sanguíneas tais como macrocitose, pontilhado basófilo, diminuição da
segmentação dos neutrófilos e presença de microplaquetas. O aumento do Volume
Corpuscular Médio (VCM) e a linfocitopenia tem sido consideradas alterações precoces do
benzenismo. (12,13).
É importante assinalar,
ainda, que há relação causal comprovada entre a exposição ao benzeno e a ocorrência
de leucemia, especialmente a leucemia mielóide aguda e suas variações, entre elas a
eritroleucemia e a leucemia mielomonocítica. (14, 15, 16, 17, 18)
O COMPLEXO PETROQUÍMICO DE CAMAÇARI -
COPEC
Atualmente respondendo por
mais da metade da produção brasileira de petroquímicos e considerado em seu gênero o
maior complexo da América Latina, o COPEC constitui um conglomerado de empresas para
produção e processamento de químicos diversos, utilizando basicamente a nafta produzida
pela Refinaria Landulpho Alves (Petrobrás). (19)
A maioria das empresas
entrou em operação a partir de 1978, sendo que os primeiros casos de benzenismo em
trabalhadores do COPEC foram observados em 1985, quando a FUNDACENTRO/Bahia realizou um
estudo na central de tratamento de efluentes, que resultou no afastamento de 12
trabalhadores com suspeita de mielopatia ocupacional. Mais tarde, em 1990, ocorreram dois
óbitos comprovadamente relacionados à exposição ocupacional ao benzeno em uma mesma
empresa processadora de benzeno. Esses dois casos, um caso de aplasia medular em um
médico do trabalho e um caso de leucemia mielóide crônica envolvendo um operador de
processo, foram o evento sanitário desencadeador do processo de investigação
epidemiológica desenvolvido por Médicos do Trabalho da Delegacia Regional do Trabalho no
Estado da Bahia. (20)
Diante do exposto, o
presente trabalho teve como objetivo estudar a ocorrência de benzenismo entre
trabalhadores do Complexo Petroquímico de Camaçari, Bahia. Além de identificar casos
precoces de benzenismo, o estudo buscou desenvolver e aprimorar condutas e instrumentos de
fiscalização trabalhista na área de segurança e saúde no trabalho, compatíveis com a
complexidade da indústria petroquímica.
MATERIAL E MÉTODO
O presente trabalho
constituiu-se em um estudo de prevalência, realizado durante o ano de 1991 a partir da
análise de dados hematimétricos referentes a 7.356 trabalhadores de nove diferentes
empresas do COPEC. Entre as empresas estudadas, uma produzia benzeno, cinco utilizavam-no
como matéria-prima, uma utilizava-o como solvente, uma era a central de manutenção
industrial, e uma era a central de tratamento de efluentes.
O hemograma completo com
contagem de plaquetas foi utilizado como indicador biológico de efeito da exposição ao
benzeno, na medida em que revela os valores hematimétricos do indivíduo naquele momento,
que podem indicar agressão da medula óssea. Neste sentido, numa primeira triagem, foram
classificados como "suspeitos" todos os trabalhadores que apresentaram valores
leucocitários abaixo de 5.000 e/ou neutrófilos abaixo de 2.500. Posteriormente, para
cada um destes trabalhadores foram realizados três novos hemogramas, com intervalo de 15
dias. Numa segunda triagem, após análise da história ocupacional e da série histórica
dos exames hematológicos, foram classificados como "caso epidemiológico" todos
os trabalhadores que apresentaram valores leucocitários abaixo de 4.000 e/ou valor de
neutrófilos abaixo de 2.000, e/ou valores decrescentes ao longo do tempo observados nas
séries históricas de hemogramas.
Após a definição desses
critérios e a adoção de um protocolo de investigação (21), os exames hematológicos
foram revisados e classificados por quatro Médicos do Trabalho, os próprios autores do
trabalho. As séries históricas de exames hematológicos e dados de prontuários médicos
foram processados na DATAPREV/Bahia.
RESULTADOS E DISCUSSÃ0
Com relação às
características da população estudada, pode-se dizer que constituiu-se em um grupo de
trabalhadores jovens - com menos de 40 anos de idade e do sexo masculino. Quanto à
lotação na empresa, 38,7% dos trabalhadores estavam no setor de produção, 31,3% na
manutenção e 30% na administração.
Em seu conjunto, das nove
empresas estudadas, foram analisados hemogramas de 7.356 trabalhadores, sendo que 850
deles (12%) apresentaram valores leucocitários abaixo de 5.000 e/ou neutrófilos abaixo
de 2.500 e, segundo o protocolo adotado foram classificados como "suspeitos".
Esses 850 trabalhadores realizaram mais uma série de três hemogramas consecutivos, dos
quais 216 mantiveram-se com valores leucocitários abaixo de 4.000 e/ou número de
neutrófilos menor que 2.000, e/ou série histórica com valores decrescentes, e foram
classificados como "casos epidemiológicos". A distribuição destes 216
trabalhadores classificados como "casos epidemiológicos" revela que 92,6% são
do sexo masculino, e a média de idade encontrada foi de 36 anos. Quanto à lotação na
empresa, 49,5% dos casos trabalhavam na produção, 34,7% na manutenção e 15,8% na
administração. Cerca de 2/3 do contigente dos trabalhadores classificados como caso
exerciam uma das seguintes funções: operador industrial, encanador/caldeireiro, analista
e auxiliar de laboratório, eletricista, auxiliar de serviços gerais, técnico de
manutenção e mecânico industrial. A existência de 34 trabalhadores nesse grupo entre
os que desempenhavam apenas funções administrativas, pode ser indicativo de uma
contaminação ambiental mais ampla, o que necessita ser melhor investigado através de
avaliações ambientais metodológicamente confiáveis. O tempo médio no emprego atual
encontrado foi de 9(nove) anos, reforçando a correlação entre tempo de exposição e o
surgimento de alterações hematológicas.
Para todos esses 216
trabalhadores classificados como caso caracterizou-se evidente exposição ocupacional ao
benzeno, sendo que todos foram afastados da exposição e encaminhados ao Instituto
Nacional de Seguro Social (INSS), através da emissão da Comunicação de Acidente de
Trabalho - CAT. Esses trabalhadores foram submetidos a criteriosa investigação
hematológica e tiveram reconhecido, pela perícia médica do INSS, o nexo causal para
benzenismo. Além disso, o acompanhamento hematológico prospectivo vem sendo realizado em
todos os trabalhadores com nexo causal estabelecido.
Os resultados apresentados
no presente estudo são corroborados por um outro estudo realizado em 1992 que mostrou que
o número de casos de doenças hematológicas graves encontradas entre os trabalhadores do
Complexo Petroquímico de Camaçari expostos ao benzeno, indica uma ocorrência destas
doenças acima da esperada, principalmente da anemia aplástica, seguida das leucemias.
(22)
CONCLUSÕES
Os efeitos mielotóxicos e
carcinogênicos do benzeno já estão bem estabelecidos por inúmeros estudos
epidemiológicos, a maioria deles relacionados com exposição industrial.
No Brasil, em levantamento
referente o período de 1983 a 1993, realizado pelo Ministério do Trabalho, foram
identificados 3.331 casos de trabalhadores afastados por benzenismo.
A maior parte desses casos
tem origem nas indústrias siderúrgicas e petroquímicas da Região Sudeste (São Paulo,
Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo), do Rio Grande do Sul e da Bahia.
A análise dos dados
coletados neste estudo revela que cerca de 12% dos 7.356 trabalhadores avaliados
apresentou valores leucocitários abaixo de 5.000 e/ou neutrófilos abaixo de 2.500.
Dentre estes últimos, 216 (2,9% do total avaliado) apresentaram valor leucocitário
abaixo de 4.000 e/ou neutrófilos abaixo de 2.000 e/ou valores decrescentes ao longo do
tempo observados nas séries históricas de hemogramas. Para estes, caracterizou-se
evidente exposição ocupacional ao benzeno, sendo que todos os 216 trabalhadores foram
afastados da exposição, com emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT),
seguida de encaminhamento para investigação hematológica mais aprofundada.
Os resultados deste
trabalho permitem evidenciar o valor do método de vigilância epidemiológica na
fiscalização trabalhista da área de segurança e saúde no trabalho. São evidentes as
vantagens desta metodologia quando comparada aos procedimentos burocratizados atualmente
adotados pela inspeção trabalhista dos ambientes de trabalho. Concretamente, a partir de
dois casos fatais de benzenismo foi possível promover a busca ativa de casos novos em
outros trabalhadores expostos. A ação fiscalizadora, consubstanciada em um método
inerente à prática preventivista, possibilitou o afastamento de um significativo número
de trabalhadores de ambientes contaminados com benzeno, trabalhadores estes portadores de
lesões precoces e ainda em uma fase em que há alta probabilidade de reversão da
evolução fatal da enfermidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS